Perda da Política

Curiosamente, estamos numa época de alta tecnologia, mas de vazio. Os seus ativistas não conseguem formular propostas de ação. Sobram poucas retóricas, como a contra o neoliberalismo, e apesar de existir um imenso espaço de debate, não existem idéias.

– O que aconteceu: a História acabou?

O fato dos Fóruns Globais não apresentarem um caminho para o Mundo, similar à internacional socialista, nos devolve a questão de até que ponto Fukuyma não tinha lá suas razões de afirmar sobre o fim da História.

– Mas o que acabou? – essa é a questão.

Evidentemente que, até para Fukuyama, a História não acabou. Não faltam discussões entre ativistas, existe um sem número de declarações e propostas – mas, sem síntese. Apenas uma colcha de retalhos enviando bilhetinhos para a História. De nada adianta ficar levantando vozes contra o neoliberalismo, contra a privatização, contra a globalização e pela justiça social. Necessita-se encontrar uma direção. A História não acabou, mas para sair-se de seu vazio necessita-se encontrar um rumo. Algo que faça a diferença.

A atualidade é que simplesmente parece aceitar que a História acabou. Ela não acabou, apenas perdeu sua crítica. O que falta a nossa época é oferecer uma crítica contundente ao momento atual. Sair do efêmero, ir além dos adjetivos que os Fóruns Globais normalmente apresentam e do distanciamento que agrada ao Vaticano. Necessitamos ir às causas e, para isto, formular as críticas.

A história é História porque consegue sair do gratuito e levantar História. Apesar dos percalços, construir seu edifício no tempo. A História não pára, ela se transforma. Dentro do seu possível, ela consegue gerar um corpo que são as civilizações.

O momento não está em dizer que a História acabou. A questão está em que críticas podemos apresentar. Estamos num mundo de fundamentalismos e desigualdades exacerbadas e não se consegue retirar uma nitidez. Entretanto, muito antes de se propor um novo, devemos criar um ponto de partida. O amanhã tem de estar no ontem, o futuro deve conhecer suas origens, é assim que devemos encontrar a madrugada desta noite da universalidade em que vivemos.

O historiador volta-se ao rio de Heráclito. Sentado na sua cadeira de balanço a refletir sobre os acontecimentos. Perceber as grandes direções que aconteceram e dos quais somos frutos. Fazer um balanço a nos trazer lembranças. Meditar, sentir o espírito que o passado nos deixa. Entender seu fluxo através dos tempos.

Estamos num momento de espera. Tempos de Reflexão. De buscar algo diferente. De apresentar algo novo em relação a Porto Alegre, Davos e Vaticano. De trazer uma visão consistente sobre o papel da cultura na formação da História.

Ao historiador nada resta do que seguir em frente com a noção de cultura. Compreender a sua semente. Enquanto os físicos procuram nos quarks a origem da árvore frondosa que levanta o Universo, acredita que a da História é baseada na cultura. O seu desafio está em provar essa intuição.

O seu momento é de meditação. Sabedor do predomínio do capital sobre todas as coisas deseja encontrar um espaço para o significado de cultura. Prefere-se então, utilizar a terminologia conhecimento. Considera que na noção conhecimento está o fundamento daquilo que chamamos de cultura. O conceito de conhecimento não deixa o termo cultura vago. Portanto, nas suas reflexões a respeito de algo a se impor diante do capital, define a expressão conhecimento.

Deste modo, escolhe projetar no ano 2050 a sua assíntota da História. Neste ponto ir compreender o que necessitamos para chegar lá. Fazer algo além do que retirar folhas do calendário.

Não foi o comunismo que desapareceu, o vazio é que invadiu o mundo. A época se esgota. O mercantilismo político nos faz perder a crença. O mundo sucumbe à falta de uma nova visão. Estamos numa época em que ninguém mais quer saber de onde vem a riqueza das pessoas. Como disse há muito tempo Eurípides: ‘O esperado não se cumpre e ao inesperado um deus abre o caminho’.

As idéias não mais correspondem. O mundo está regido por uma tumultuosa marcha de fatos sem causa, de acontecimentos sem origem. O vazio nos leva a complexidade. Na complexidade, as coisas perdem suas faces, tudo fica enredado, nenhuma causa consegue se sobrepor. O único a solucionar a complexidade é o capital. No seu teor de amoralidade ele circula sem pedir licença. Acaba que vamos para onde o capital quer, o comandante da complexidade.

Não foi a Guerra Fria que movimentou esse tempo de História, mas o ‘ame-o ou deixe-o’ que as ideologias levantaram contra o capital. Embora sempre aconteça uma luta contínua do homem para não se aceitar como um ser capitalista, a História definir-se-ia. Elevaria o capital a nível do tempo como parâmetro discriminador dos acontecimentos. Ao lado do rei Cronos haveria o deus capital.

A vitória do capital retirava o debate. O tempo de o capital e de o trabalho darem as mãos ou ao menos discutirem entre si havia ficado para trás. As duas propriedades maiores do capitalismo – concentração de renda e especulação financeira – iriam se sobrepor. Não haveria mais discurso político que as contivesse. Sem mais oposição ideológicas, o capitalismo torna-se o soberano a conduzir a civilização. O lucro seria elogiado como o grande preceptor. Os homens mover-se-iam para onde o dinheiro estivesse. A consequência deste domínio completo do capitalismo é que seria o único combustível a alimentar o motor da História. O trabalho, o estado, a empresa e o empreendedorismo estariam submissos às suas vontades.

Estranho momento de desencanto. Contudo, entramos numa época dita como a da morte das utopias, num pragmatismo pós-moderno, onde não há mais lugar nem para críticas nem para sonhos. As viagens ideológicas, passando pelos ismos de comunismo, liberalismo, socialismo, psicanalismo, sexismo, perderam suas marchas. Estamos numa época em que tudo se compra com dinheiro. A História resolveu desvincular-se de seus compromissos com o todo e conhecer a vereda existencial do individualismo. Um episódio de destino, no qual deixamos para trás muitos valores constituídos. Ficou aos homens ou assistir ao desmantelamento dos valores de sua sociedade, ou reencontrar a sua chama inicial.

A perda de ideais políticos é o retrato de nossa época. O valor do marxismo não foi como teoria científica. A importância de seus últimos 150 anos foi o de oferecer uma crítica ao capital. Não deixar que o sentido de lucro caminhasse sozinho. Hoje não existe nenhuma ideologia similar capaz de limitar as ações do lucro. Não é mais a luta de classes, mas a própria defesa do meio ambiente que não consegue deter a depredação capitalista. O capital ficou à parte das leis da Natureza e ninguém objeta.

O fato é que estamos num Mundo que caminha para 9 bilhões de pessoas em volta de 2050. Estamos diante de um desafiador calendário para a espécie humana. Estamos a receber a um conjunto de pessoas desejosas de água, comida e de participar do direito de se inserir na classe média. Necessitamos encontrar uma nova História.

Necessitamos sobrepor-nos à decadência política. Vivemos uma época das complexidades e sem apontar nenhuma perspectiva. A consequência é a de estarmos com jovens sem desafios e cidadãos sem direitos. Contudo, os dias e as noites não são feitos apenas para o Universo, mas também para a História, trazendo amanheceres e entardeceres que os obrigam a procurar algo. Tanto o Universo quanto a História só se equilibram em movimento. Não podem parar. Igual as rodas de uma bicicleta os seus discos giram mas não acabam.

Com ou sem ideologias, a ONU alerta para o fato de estarmos num mundo onde quase 1 bilhão de pessoas vivem em favelas, e o pior: prevê que em 2030 esse número crescerá para 2 bilhões. Metade da população mundial tem menos de US$ 2 por dia para sobreviver. A ONU ressalta que estamos caminhando sobre uma bomba-relógio. Enquanto isso, os gastos militares chegam a 1 trilhão de dólares anuais.

Os partidos estão vazios de propostas e de idéias. À parte de qualquer proposta de novo momento histórico, vivem aos intestinos eleitoreiros. Não conseguem despertar um programa político capaz de olhar ao terceiro milênio. Contudo, a saída do vazio não é ficar a estigmatizar as injustiças do mundo ou a creditar que os resultados da economia financeira são o termômetro dos acontecimentos. Necessitamos voltar a valores primitivos, como a geração da cultura.

Talvez falte aos políticos assistir aos Irmãos Marx. A cena é a de chefes militares em torno de um mapa a examinar as coordenadas de uma batalha próxima. Discutiam a formulação do assalto final, quando, Groucho, o general, diz: ‘Uma criança de 3 anos entenderia isso’. Longa pausa. Groucho, virando-se para um ordenança:

– Tragam uma criança de 3 anos!

Devemos partir do princípio de que estamos numa época sem retrato. Entramos nesta época trazendo um novo espírito a ser identificado. O ‘Zeitgeist’ (palavra alemã para o espírito de uma dada época) ganha uma nova performance. Um novo abraço de cosmos nos convida, mas falta-nos captar o seu perfil. Descobrir o seu momento de ‘flash’.

Sem Retrato

Ninguém mostra o perfil da História nesse início de milênio.

 

– Para onde vamos? – o vazio nos pergunta.

A História não pode parar. A sua dinâmica de fatos necessita seguir. Ir em frente, encontrar um novo ponto no horizonte. Essa é a missão a ser enfrentada por todos, principalmente pelo historiador. Descobrir o novo motor da História. Bem que a criança poderia estar renascida num paradigma novo.

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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