Cultura

Os homens estão à procura de um novo contrato social. A civilização estréia um milênio na firme convicção de que um novo mundo é possível. Mas, igualmente a Colombo, falta encontrá-lo…

Estamos sob um enorme desafio a respeito do significado de cultura. Chegamos a uma altura da História em que, a partir da cultura é que as oportunidades ficam disponíveis. Devemos simplesmente reinterpretá-la. Fazer uma revolução que a retire de um significado passivo para o de transformador da sociedade. Essa possibilidade é a nova esperança.

Ninguém mais se propõe a negar o capitalismo. Perdeu-se um século discutindo as contradições naturais do capitalismo, mas não se encontrou uma outra forma de troca. De nada mais adiantarão atitudes anticapitalistas; tornaram-se inconsequentes. A questão está em como promover o desenvolvimento capitalista provocando crescimento econômico e distribuição de renda.

Estamos numa época do capital e da cultura. Um período de desgaste capitalista e de ascensão cultural. Uma época propícia a os dois se encontrarem. Um necessita conhecer o outro. A Porto Alegre e Davos só serão possíveis mostrar um retrato da História quando se encontrar o lugar da cultura nesta mesma História. Estamos num tempo de luta para encontrar-se. Nem o trabalho nem o mercado conseguem mais conduzir o Mundo. As contradições entre o capital-trabalho espalham-se e a relação capital-capital a economia financeira vive de incertezas. Sem retrato, os murmúrios de insatisfação são muitos.

Estamos numa época onde se torna necessário refletir profundamente sobre o significado de cultura. O novo milênio traz definitivamente de volta o sentido da cultura. Obriga-nos a tocar as fímbrias da magia cultural para percebermos a relevância da cultura. A entendermos que, a partir de seus textos, acontece um sinal de vida, do avanço, de movimento. O filósofo alemão Max Weber (1864-1920) foi o primeiro teórico a afirmar em seu livro ‘A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905)’ que cultura antecede a democracia; acreditava que a ética protestante fora essencial para o desenvolvimento do capitalismo e, consequentemente, da democracia.

Neste clássico de Weber uma reflexão a nos dizer que o próximo sistema político venha a ser o cultural. Analisou o desenvolvimento do capitalismo em alguma nações da Europa Ocidental e, sobretudo, nos EUA. Weber detectou que em países e regiões protestantes houve uma tendência ao bom funcionamento do sistema capitalista, favorecido pela ‘ética protestante ou puritana’, voltada para o ascetismo intramundano, no qual o trabalho abnegado (e desprendido do gozo mundano) é percebido como um caminho para o virtuosismo moral.

Precisamos ir entender o que significa fazer História a partir de um novo agente além do monoteísmo e do capitalismo. Falta-nos muito para entender como a cultura se torna um ativo, um agente propulsor dos acontecimentos. Vivemos à sua sombra; ainda não conseguimos olhá-la diretamente. Nem tanto ao senhor do céu, nem tanto ao da terra, a cultura tem que encontrar o seu espaço entre o baixo e o divino. Existe algo mais no mundo além de fazer o capitalismo dar certo e ficar a rezar pelo monoteísmo.

– Sem conteúdo, não existe sociedade que avance!

Não estamos no fim da História, como disse Fukuyama, mas no início de uma nova era, que precisamos identificar e sistematizar. Entramos numa época desafiadora: os interesses imperialistas capitalistas tornaram-se base para conquistas culturais. O colonialismo clássico terminou. A dominação agora será cultural. Esta é a nova matriz de poder. Não apenas a fonte de modelos de comportamentos e científicos, como a de modelos de desenvolvimento econômico.

Existe um tema ainda a ser compreendido: a resposta das sociedades às oportunidades a se desenvolverem. Entender qual a sua dependência ao seu substrato cultural. Chegamos ao interessante momento da História em que o ponto de partida está nas oportunidades que nascem com a cultura, e não com o capital. É uma percepção que não envolve a exploração do homem pelo homem, mas a sua forma de se expressar. A diferença entre uma economia estagnada e outra florescente pode não estar na questão de investimentos, mas na sua percepção cultural.

Em 1946 foi lançado o livro ‘Geografia da fome ‘ de Josué de Castro. A sua obra derrubava a idéia de que a falta de alimentos era uma tragédia da natureza. Hoje, a prioridade não é mais o combate à fome e à miséria, mas o incentivo à cultura.

– A cultura antecede à fome?

Hoje, existe um enorme sentimento de mudança na sociedade, que obriga que as propostas de Josué de Castro de matar a fome sejam vistas a partir de um outro patamar. Neste novo milênio, o combate à fome deve ser substituído por um combate à ignorância. O novo padrão está em que é a partir do conhecimento que as outras necessidades devem ser providas.

Neste novo milênio, entramos numa época em que a cultura deixa de ser passiva. O fator cultural pesa de tal forma que, para o historiador da economia David Landes, é possível prever se um determinado programa econômico funcionará segundo a cultura do país. ‘Era possível prever o êxito econômico do Japão e da Alemanha depois da guerra’, afirma, e o mesmo ‘pode-se dizer da Coréia do Sul, em oposição à Turquia, e da Indonésia em relação à Nigéria’. A cultura ostentatória dos argentinos, nos anos 20 e 30, faria prever, por essa visão, tudo o que ocorreria no país. Assim como a crença mórbida dos sul-americanos de que são espoliados, os coitados do mundo, levaria ao interminável ciclo de dependência.

Também fala-se muito nas diferenças culturais entre o catolicismo e o protestantismo como causas para as diferenças de desenvolvimento dos EUA e do Canadá em relação ao restante da América. Postula-se que por os católicos pregarem o desapego aos bens terrenos e os protestantes celebrarem a prosperidade, os países sob colonização destes tenham alcançado maior progresso. Da mesma forma, o fato de o protestantismo propor que cada um seja responsável por evitar o pecado tenha feito com que os países protestantes sejam menos corruptos que os católicos. Em 1993, o cientista político Sammuel Huntington, diretor do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade de Harvard, lançou seu livro ‘O choque das civilizações’, considerado uma refutação às idéias de Fukuyama. Nesta obra, o autor levanta a tese de que conflitos entre blocos culturais do mundo serão predominantes na era pós-comunismo. Sustenta a hipótese de que as guerras na nova era da História mundial são, sobretudo, confrontos de civilizações.

Então, identifica sete grandes civilizações e considera as suas linhas de fratura como divisões permanentes, como a entre o islã e o cristianismo.

Afirma também que o mundo divide-se em civilizações fundadas em diferenças culturais de longa duração – o cristianismo ocidental, o ortodoxo, o islamismo e as religiões confuciana (chinesa), japonesa, hindu, africana e latino-americana. Observou então que, após o fim da Guerra Fria, a ideologia e a política deixariam de causar conflitos internacionais e a tensão dar-se-ia a partir de tais divisões culturais. Por exemplo, sob a ‘ótica do choque de civilizações’, interpreta a realidade americana como um conflito entre um ‘eu’ anglo-saxão e um outro ‘eu’ hispânico. Considera ser provável que o eixo central da política mundial no futuro venha a ser o conflito entre ‘o Ocidente e o resto’.

Aponta também que as idéias ocidentais de individualismo, liberalismo, direitos humanos, constitucionalismo, igualdade, liberdade, democracia e separação Estado-Igreja possui pouca ressonância nas culturas islâmica, confuciana, japonesa, hindu, budista ou ortodoxa. Conta que a expressão ‘choque das civilizações’ lhe surgiu em um ensaio ‘As razões da fúria islâmica’, no qual escrevera: ‘(…) Enfrentamos um estado de espírito e um movimento que transcende o nível de temas e políticas, como dos governos que as perseguem. É um choque de civilizações – reação talvez irracional, mas certamente histórica de um antigo rival contra nossa herança judaico-cristã, nossa atual secularidade e a expansão em âmbito mundial de ambos’.

Na sua tese, após a Guerra Fria, no lugar do confronto entre socialismo e capitalismo, haverá primeiro choque com o Islã (acredita-se que, nos próximos anos, a religião mulçumana será a maior do planeta, ultrapassando o Cristianismo). Depois, o próximo embate será com a China, por volta de 2015, que resultará numa guerra nuclear. Então, salienta que essa guerra será enormemente destrutiva, e que três países sobreviverão para continuar o processo civilizatório: o Brasil, o Paquistão e a Indonésia.

Outra perspectiva trazendo a presença da cultura na História está na conceituação de simulação pelo filósofo francês Jean Baudrillard. Atesta que o mundo que se conhece atualmente é uma simulação construída sobre a representação de representações, levando a um resultado sem qualquer relação com a realidade. Tais simulações existiriam para levar as pessoas a pensar que uma certa realidade identificável realmente existe, quando, na verdade, ela seria formada de imagens falsas em que o signo torna-se mais importante do que aquilo que ele representa.

Chega o dia em que o passado tem que ficar. Aos poucos, a vontade de se ver os acontecimentos a partir da cultura começa a ser sentida. Embora Davos e Porto Alegre ainda não partam deste princípio, a questão de que ‘a cultura importa’ começa a reunir ensaios de sociólogos, antropólogos, historiadores, economistas e jornalistas, como no livro ‘A cultura importa – os valores definem o progresso humano’ organizado por Lawrence Harrison e Samuel Huntingon.

No livro, observa-se, por exemplo, que, no começo da década de 60, os dados econômicos de Gana e Coréia do Sul apresentavam níveis baixíssimos, e ambos os países recebiam ajuda econômica equivalente. Quarenta anos depois, a Coréia do Sul tornou-se um gigante industrial, é a 14ª economia do mundo, exibe multinacionais e exportação significativa de automóveis, equipamentos eletrônicos e outros produtos sofisticados. Nenhuma destas mudanças ocorreu em Gana.

– Afinal, por quê?

Mas, antes de esperarmos pelas previsões de Baudrillard, Huntington e outros, ou que um rio-de-boa-vontade parta dos Fóruns Globais, devemos nos importar com o novo sentido ativo do conhecimento. Precisamos entender esse acúmulo do saber como o novo propulsor da História. Como, por exemplo, traz o aparecimento da existência da Economia do Conhecimento. Mostra como a nossa época já penetrou num sentido mercantil do conhecimento que vai muito além daquela perspectiva de iluminação acalentada pelos monges da Idade Média.

O Vaticano também não pode ficar à parte desse extraordinário desenvolvimento científico-tecnológico que acontece no século 21. Enquanto Porto Alegre e Davos devem enfrentar as novas realidades sociais e econômicas advindas do conhecimento, cabe ao Vaticano propor uma nova Teologia Científica.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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