Espírito do Capitalismo

A Economia é uma deusa que não se deixa tocar muito facilmente. Apesar de existirem mais pretendentes a cortejá-la do que ao Universo, os seus espelhos ilusórios são mais misteriosos do que o caminho de um planeta. Não basta classificar a Economia em quatro formas e naturezas. Existe um espírito econômico a ser entendido.

A produção de riqueza não depende unicamente das quatro formas de Economia e das quatro naturezas do capital. Existe um outro fator, o da sua práxis, chamado de o espírito capitalista. Sem dinamismo. A União Soviética caiu por mil razões, mas uma delas foi a falta de dinamismo da própria sociedade devido a burocratização.

A sociedade não é um grito em favor da esperança. O seu povo não é o de seguidores do Senhor. O que a conduz é o espírito capitalista. A dizer que numa sociedade capitalista o dinheiro anda na frente. A economia não chega em defesa da alma humana. O seu rio apenas banha a Humanidade.

Neste espírito é que está o fundamento que ergue os edifícios e estabelece as relações sociais. O progresso capitalista, e não simplesmente a curiosidade humana, é que nos levou a desenvolver a tecnociência que atualmente sustenta as sociedades. Ao mesmo tempo, o capitalismo só se interessa pelo Outro como meio de lucro. Não existe um relacionamento maior. O mercado não é um lugar para fazer amigos. Para o capital, a sociedade deve ser organizar pelo lucro, e basta.

Esse é o espírito capitalista. Um espírito que não tem nada a ver com o de trocas efetuado pela Natureza e razoavelmente descritas pelas Teorias de Gauge e nem com as premissas religiosas. O capitalismo não impõe as regras de seleção que conduzem os fenômenos físicos nem as regras éticas que conduzem o homem em seu caminho para o alto. Fazendo com que, quando um cidadão compra ou venda algo, esteja amoralmente indiferente à necessidade humana de constituir um conjunto de atitudes, hábitos e restituições que lhe dêem uma sustentação ética. Essa é a sua forma de progresso. A de colocar uma pele de rinoceronte em nossa alma e ir em frente.

Os homens estão sempre a querer saber o que fazer em sua passagem de vida. O espírito capitalista, o dos seguidores do lucro, lhes traz a volúpia de progresso e de utilização do Outro. São os seus dois movimentos básicos. Sob eles, criam-se os diversos enredos que constituem as sociedades atuais. Não haveria progresso sem a mão capitalista. Foi a sua presença que capinou Manhattan e a transformou de uma ilha selvagem a uma sucessão ininterrupta de edifícios. Entretanto, a dicotomia capitalista está em trazer o progresso sem chegar ao Outro. Ficamos apenas com os edifícios.

– O lema do espírito capitalista está mais para ‘fé em Deus e pé na tábua’.

Deste modo forma-se o espírito do capitalismo. Sem nenhum cerceamento da liberdade de escolha promove as trocas que lhe convier. Proibindo qualquer proibição, regras de seleção, esse espírito se torna o promotor da economia do mercado. Aos opositores dessa sua ‘alma’ define como autoritários querendo capturar essa sua liberdade de escolha. Então, estrategicamente, o capitalistamo procura se confundir com a democracia. A caracterizar que ambos partem de um conceito comum de liberdade de escolha. Mas, enquanto a democracia promulga que os cidadãos devem ter o direito de decidir por si próprios, o capitalismo propõe uma liberdade de troca amoral.

– Que liberdade de escolha é essa? – pergunta-se o historiador.

A democracia e o capitalismo trazem duas condutas totalmente díspares a respeito do conceito de livre arbítrio. Mas as vozes do sistema chegam para confundir. A instigar que o aperfeiçoamento da democracia está interligado a liberdade capitalista. A relevar que os benefícios materiais conquistados com suas rendas, salários, empregos e lucros estão a depender dessa liberdade capitalista. O que não indagam é sobre as conseqüências de movimentar a todo de uma sociedade através de uma expressão amoral de trocas. É sabido que, a idéia de que todas as coisas são permitidas ganha passagens para o alto e, abre as comportas do inferno.

Diversamente da Teoria de Gauge cuja troca procura desvendar a verdade dos fenômenos físicos que permeiam o Universo a troca capitalista busca somente o lucro. O objeto do capitalismo é o lucro. O negócio é faturar. Entretanto lucrar é uma coisa, mais valia é outra coisa, riqueza financeira outra coisa, promover amoralidade outra. São assuntos muitas vezes substanciados na palavra capitalismo mas com caminhos bastante diversos. Ao seu modo cada um exprime o chamado espírito capitalista. A sua motivação está na liberdade de trocas.

Muitas tentativas, a respeito de suas críticas ao espírito capitalista, como a do marxismo, se tornam infrutíferas. Acumulação de capital, luta de classes e até abolição do capitalismo foram temas extremamente discutidos, mas que não impediram ao espírito do capitalismo se propagar. Continuamos cânones de parâmetro capitalista.

Necessitamos de uma reflexão maior:

– Continuaremos capitalistas?

As mudanças acontecem quando, às vezes, notamos que o Mundo tem pouco a oferecer a seus personagens. Sem dúvidas que o capitalismo foi o responsável do maravilhoso progresso que ergueu a Humanidade. Contudo, existe um estranho acontecimento que se sobrepõe ao progresso capitalista. É a necessidade do ser humano fazer um mergulho em si mesmo. Uma passagem que não tem nada a ver com o capital e que entre outras coisas o leva a ir procurar o Outro e a si mesmo.

Os homens precisam se pertencer. Embora, cercado por um Universo imenssí…ssimo e uma sociedade altamente capitalizada, há sempre um ponto que lhe resta. Há sempre um espaço, por menor que seja que continua a lhe pertencer. Ali, espremido, ele deve resistir e se impor. Fazer dos seus dias, dias seus. Construir sua arte. Desenvolver seu espaço psi. Nenhum homem escapa em sua vida de sua visita à caverna.

Existe uma caverna a ser visitada. A vida humana vai além do capital. Ela é tragada por uma trama hipnótica que a obriga a penetrar na escuridão da caverna de si mesmo. Ao mesmo tempo necessitamos nos identificar com o Outro. Dar-lhe rosto. A mente humana precisa abrir seus olhos não apenas para o piscar das estrelas. Existe um Outro a ser enxergado.

Desta forma o espírito capitalista que desenvolveu os séculos 19 e 20 necessita a ser reformulado. Promotor do progresso, levou o século 20 a um Mundo notável, mas agora, necessita encontrar uma nova dimensão de troca que o leve ir além da sua apregoada liberdade. Esse é o desafio. O capitalismo tem de traze

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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