Naturezas do Capitalismo

O capital é um organizador, um dia estivemos de tacape, hoje de capital. A civilização tem de conviver com o que seu presente dispõe. O historiador enxerga a essa situação. Entretanto, não deseja ser um colaborador deste mundo capitalista que tá aí. Opta ir investigar sobre a natureza do capital. Ao historiador não bastava encontrar as formas de capitalismo. Haveria outra investigação a respeito da sua natureza. Não basta entender os seus tipos de troca, existem também, características que compõe o seu comportamento.

Compreende que a civilização existe graças ao consentimento capitalista. De que existe um chão sólido capitalista debaixo de nossos pés. Lembra a geologia, a colocar que debaixo das florestas e mares que alimentam a vida, existe um magma em movimento circular ao redor do centro da terra. É como a civilização ganhasse vida através desse magma capitalista. É ele que alimenta as indústrias, as lojas e todas as outras trocas que a civilização constituem. A fonte de calor do progresso.

Deseja entender o sistema capitalista em seu nascedouro. Após haver investigado sobre as formas da Economia se manifestar de pretende entender sobre a natureza do capital. Estamos sempre tocando em duas exterioridades, a Natureza e o dinheiro, mas não sabemos bem o que são. Embora haja convívio diário, as suas naturezas nos são obscuras. Muitas vezes, dormimos por anos com uma mulher e também não sabemos realmente quem ela é. Basta, não pagar o cartão de crédito, ficar desempregado, para entendermos que existe uma ‘natureza’ controlando nosso convívio diário.

Marx tinha uma denominação especial para o dinheiro. O chamava de ‘equivalente geral’. Dizia que através deste ‘equivalente geral’ que percebemos o diferente grau de poder ao qual se articulam os agentes que determinam o valor das mercadorias. O historiador preferia entender o dinheiro como um passe de troca. Seja comparativamente com uma bola de futebol ou um bóson de gauge, considera o capital como o elemento de troca capaz de relacional as mercadorias.

Entretanto, essas suas trocas contém uma natureza. Igual a uma maçã o capital carrega um gosto. Ou melhor, quatro sabores. São os da acumulação, valorizar o próprio valor, amoralidade e virtual-real. Antes de pensar em vendas, deveríamos refletir a respeito dos paladares que o capital oferece as mercadorias sendo trocadas.

Marx se debateu com a primeira característica do capital que é a acumulação. Considerou que no processo de exploração do capital estava o cerne do capitalismo. O século 19 e 20 serviram de laboratório para demonstrar esse processo de acumulação capitalista. A mostrar que o capital não vem para desenvolver um mercado socialmente responsável, distributivista. Ele é feito para ganhar, para enriquecer, para acumular. A sua natureza é a de concentrar mais renda em quem já a tem alta.

A luta marxista se concentrou em impedir que o poder econômico caísse nas mãos de grandes grupos econômicos. Não faltaram grandes discussões e crises a respeito da distribuição de renda. Entretanto a natureza acumulativa do capital sempre se perpetuou. A sua única mudança foi a de passar de mãos.

O segundo aspecto da natureza capitalista diz respeito a sua não-linearidade. O capital é capaz de criar o seu próprio valor. Não depender unicamente de fontes externas como matéria-prima, tecnologia e trabalho na confecção da mercadoria, como ter a capacidade de valorizar a si próprio. Quando escreveu sua ‘Teoria da Mais-Valia’, Marx estabeleceu a expressão ‘estufamento’ para o capital. A ressaltar que além de acumulação via mais-valia, o capital consegue valorizar o próprio valor através de especulações, o que gera uma profunda contradição à própria lógica do ciclo produtivo. Dizia que estaria inerente a natureza capitalista esse contínuo surgimento de bolhas no setor financeiro.

A Economia pode se manifestar em quatro formas, mas o seu objetivo é o lucro. A sua liberdade de troca estabelece que o capital deve se relacionar com todas as coisas indistintivamente, contudo, trazendo numa universalidade amoral. A vocação da riqueza característica da acumulação cria a filosofia da concentração de renda, isto é, deve-se deixar que a riqueza se concentre na mão de bilionários e esperar que depois desça para todos os homens.

Neste sentido é que deve-se começar a observar as ditas crises do capitalismo. Normalmente a crise não é por falta de lucros mas para quem vão os lucros. Por exemplo, na crise grega de 2010, o PIB da Grécia havia aumentado cinco vezes entre 1990 e 2007, o lucro das empresas aumentou 28 vezes na Bolsa de Atenas: resultando num grande acúmulo de riqueza. É quando chega um pacote de autoridade fiscal para taxar a classe trabalhadora e não a oligarquia a financeira grega (da dívida grega de 300 bilhões de euros, 30% dos credores são os próprios bancos gregos). Uma situação que levou Nikos Seretakis, do Partido Comunista Grego, a considerar esse pacote como ‘o maior golpe contra a classe trabalhadora desde a Segunda Guerra Mundial.

Faltava-lhe indicar o seu terceiro fator do processo econômico: a amoralidade. O capitalismo não chega para transformar a sociedade num reino da virtude. O grande historiador François Furet já dizia ‘a História não serve como lição da moral’. É sabido que o capital não passa de um retrato do que somos e não do que seremos. O seu progresso não se arvora a um reformador de valores éticos. É amoral. Não é imoral. Não tem moral.

A bola, a palavra, os bósons de gauge e o capital são impulsionados pelo mesmo propósito de se comunicar. Enquanto o jogador Didi era considerado o mestre do passe, Machado de Assis do vernáculo simples, o físico C.N. Yang da simetria, pode-se dizer que o liberalismo de Adam Smith aposta num capital moralmente neutro como o melhor intérprete da condição humana nas suas trocas de mercadoria. O seu bóson de gauge intermediário – o capital – carrega a livre circulação. O direito de uma conduta ilibada. O dinheiro ganho na droga compra o leite, compra armas para matar e construir hospitais para salvar vidas. Não existe um mistério superior a ser respeitado, o que importa é não tirar o pé do acelerador.

O fato de o capital ser moralmente neutro conduz uma delicada forma de expressão econômica. Traz uma circulação de riqueza indiferente à ética. Enquanto os 150 anos de marxismo debateram sobre a acumulação da riqueza, ficou espaço para o debate de o quanto livre deve ser a circulação da riqueza. O capital circular amoralmente não entra nos debates sobre ética que a sociedade promove. Embora a cidadania estimule a prática ética no campo social, no lado econômico essa discussão não ganha sentido.

– O que significa uma circulação amoral da riqueza? Que sociedade estamos construindo?

A civilização ainda não refletiu sobre essa sua ligação amoral coletiva:

Aos poucos críticos, essa passagem no tempo amoral capitalista, é uma realidade pouco animadora. Essa sua ampla e irrestrita liberdade de trocas costura um enredo de personagens entediados que parecem nutrir poucas expectativas em relação ao Mundo e a si próprios. Consideram que necessitamos de uma outra forma de se constituir o progresso, que consiga ir além da ambiguidade dos relacionamentos e da falta compreensão entre os personagens, que se mostram inseguros quanto aos papeis que devem desempenhar. Mas, o fato é que esse diálogo amoral capitalista é o único possível até o momento para integrar a Humanidade.

– Que tipo de integração a amoralidade capitalista nos leva? – fica a pergunta.

Existe uma quarta natureza do capital que é a de se credenciar no lado virtual e real da constituição da riqueza. Muitos têm sido os pensadores da Economia. Em sua maioria se focaram sobre o papel de acumulação do capitalismo, outros a respeito da sua especulação, poucos de sua amoralidade. Falta ainda, ao menos em termos de opinião pública, se ressaltar a respeito do não-trabalho. Marx entendeu o mecanismo do desenvolvimento tecnológico e da substituição do trabalho pela máquina. Mas, não enfatizou a virtualidade do processo econômico. Não concebeu o termo não-trabalho.

Portanto, o que expressa o capitalismo não é apenas a acumulação. Além dessa voracidade de aproveitar as oportunidades, três outras características definem sua natureza. O capitalismo é autogerador, amoral, virtual-real. A especulação é inerente ao sistema capitalista por seu aspecto autogerador, a amoralidade o distingue da ética e o virtual-real cria uma formação de riqueza que associa o trabalho e a inovação com o não-trabalho.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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