Primeiro personagem: o Historiador

Em tal contexto, surge a figura do historiador. Nestes tempos de vazio, o último dos moicanos é o historiador. É o único a não poder aceitar que a História acabou e que o vazio se instalou. Seria o seu próprio suicídio. O historiador não é um articulista. Sabedor dessa condição, só lhe resta ao menos conseguir resguardar algumas anotações. Entre elas, a de resguardar o passado.

Resolve então, ressuscitar as palavras de Heráclito:

No século 6 a.C., o filósofo grego Heráclito (540-480 a.C.), considerado o fundador da dialética, apontava para o estado de fluxo constante das coisas. ‘Tudo muda exceto a própria mudança’, dizia ele. Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado… Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo… É na mudança que as coisas acham repouso… Heráclito pode ser considerado o precursor do conceito de dinâmica. A sua noção de movimento dialético das coisas (opostos e complementos) foi a base do pensamento de Hegel e Marx do século 19. Uma ignomínia, para eles, seria dizer que o Sol ou a História houvessem parado.

O desafio não está somente no entendimento do movimento dos planetas; precisamos saber entender como a História se movimenta. A História está se movendo numa dada direção e cabe ao historiador compreender o seu determinismo. Procurar as razões do sentido que toma. Não deixar ao acaso que seu rio não se movimente sem uma causa.

Insiste que uma História que aceita o vazio estará condenada a irrelevância, e pior, a perpetuar a mistificação. O seu dever está em extrapolar a sua dinâmica. O em se compreender o percurso da Humanidade até 2050. A História não vive de limites, mas das oportunidades que cada época oferece. Essa é a sua conquista. Assim como um médico deve estar comprometido com a saúde de um corpo, o historiador diante dos caminhos da História. A sua questão estará em entender quais as oportunidades de movimento de massa a História estará a propiciar até 2050.

A História necessita voltar a fazer as ‘grandes perguntas’. Aquelas cuja indagação é a de mudar o Mundo. Os tempos movimentaram-se e ao século 21 não cabe projetar a discussão socialismo-capitalismo. Evidentemente, não é fácil sair dos velhos discursos socialistas e capitalistas, mas o desafio de oferecer condições de vida de classe média é muito grande. Existe um salto qualitativo histórico a ser efetuado no sentido de oferecer um novo patamar de alimentação, saúde, educação, divertimento. Muitos acreditam e acreditaram que a solução virá do avanço tecnológico. Essa fase também foi ultrapassada e ao historiador caberá ir além.

Para seguir em frente, ele leva três conselhos. Primeiramente, o de não se deixar envolver em ilusões polêmicas; segundo, o de encontrar um sentido pragmático a ser atingido; terceiro o de ficar amigo da mente humana. Assim, sair da discussão preto e branco, tais como esquerda-direita, ateu-religioso etc é seu primeiro desafio. Aceitar a complexidade das coisas. Pragmaticamente, o seu segundo desafio está em abrir uma via capaz de conduzir a espécie humana a classe média. Então, para entender a mente humana como o motor da História, não a relegar simplesmente como meio a propiciar novas tecnologias, resolve tornar-se um jardineiro. Em vez de ser um revolucionário bolchevique ou um empresário capitalista, a regar como uma planta que deve crescer entre o céu e a terra da psicologia humana.

Estamos diante do novo, de um salto que deve chegar logo. O historiador reflete, medita e, em vez de pedir a criança de 3 anos a um anjo, resolve ir procurá-la. O caos será o preço a pagar ao tempo perdido. Mesmo, ainda confusamente, deverá encontrá-la através de caminhos culturais. Decide tomar como referência o historiador britânico Eric Hobsbawn. Faz um balanço de sua produção intelectual e pergunta-se se os seu três livros – ‘A era das revoluções’ (1789-1848), ‘A era do capital’ (1848-1875), ‘A era dos impérios’ (1875-1914) não poderiam ter continuidade num outro a ser denominado como ‘A era do conhecimento’.

Entende seu desafio. A História é uma ciência que trabalha com multidões, o que a faz se aproximar do sentido de espécie. E a multidão do século 21 parece ser o momento mais notável desde que a civilização floresceu da noite dos tempos. Falou-se muito da revolução francesa e bolchevique. Contudo, o retumbar desse passado se apequena diante da grandeza dos acontecimentos que estão por vir neste século 21. Lembram fogos de artifício diante da grande transformação a acontecer neste século. O crescimento populacional, o avanço tecnológico, as limitações de provedor do planeta estarão nos levando a uma transfiguração de nossas relações.

A sua cabeça fica voltada a indagar se o predomínio da História até 2050 virá dessa Era do Conhecimento. De como introduzir a elevação do conhecimento como o novo agente predominante da História. Uma larga reflexão está à sua frente. Sinta que estamos diante de uma grande mudança.

Neste contexto, levanta suas preocupações nestes tempos de vazio. Chega para atender um Mundo fragmentado. Como retrato, resolve avaliar as classes sociais. Fazer anotações sobre os comportamentos destas castas sociais. Classifica como a dos pobres, a da classe média, a dos empresários, a dos intelectuais, a financeira.

A seguir tece considerações:

A primeira a observar é a classe pobre. Anota que está à procura de seu bem estar. A sua satisfação está em ter acesso à comida e ao cimento barato. Não tem a menor preocupação em saber sobre a importância do conhecimento. O importante é a sensação que tem de que a sua vida está melhor. Para isto, as suas referências são o aumento do salário mínimo, emprego (formal e informal), Bolsa Família, tarifas com pouco aumento. A seguir faz considerações sobre a classe média. Diz que: é o suporte da manifestação de cidadania. Desencantada com o quadro político, é a única a acreditar no significado do conhecimento, inclusive empregando suas economias. A classe empresarial é a próxima. Novamente anota: quer que suas encomendas aumentem, seus clientes aumentem, mas sobrevivem com o olho na difícil relação entre produção e o mundo financeiro. O câmbio lhe é tão crucial quanto sua produção. O conhecimento é um insumo que passa distante de suas mãos. Quanto à classe intelectual, registra que, com a perda da ideologia para a economia e o próprio vazio de entresafra de idéias da época, faz com que o intelectual não consiga atingir sua função maior, que é a de um projeto nacional. Diferentemente de épocas anteriores, os intelectuais não conseguem formular idéias. Não mostram aprofundamentos. É um intelectual sem bandeiras, apenas de falas de cafezinho.

Por último, analisa a classe financeira: é a casta superior. Enquanto na Índia Antiga reverenciava a religião e a alma, hoje surgem os brâmanes financeiros. Sem trabalhar, sem investir na produção, sem se arriscar no conhecimento, conseguem se apoderar da riqueza. São os sacerdotes do deus-capital. Anota que as classes sociais estão mais isoladas entre si do que articulando a famosa luta de classes marxista. Sendo assim, conclui que trazem uma relação de castas sem conflitos, egoísta, cada uma dentro de sua esperança econômica.

Diferentemente da mídia, o historiador não pode viver de jargões com os quais o comunismo acabou. Admite que a felicidade não está na esquina. Entende que o ‘caminhando com o capitalismo’ é a única via que restou do processo histórico, e compreende que necessita ir além. Medita se não estamos envenenando a vida ao propor um modelo capitalista. Surpreeende-se que não há nenhum ceticismo diante da amoralidade capitalista. Prescreve que um lento suicídio pode estar acontecendo.

Ao historiador cabe procurar e interpretar as polêmicas de uma época e, a falta de uma classe reivindicadora o preocupa. Resolve, então, procurar entender o que dizem as instituições. E opta por investigar os Fóruns Globais e o Vaticano. E delas esperar alguma insurgência.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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