Fundamentalismo religioso nas eleições

As religiões querem nos dizer que a vida é mais do que um bom almoço. A dificuldade está em que ora elas se situam no passado ora no futuro. Nunca no presente. Ao contrário, deixam para o presente que vivamos seus sacerdotes.

Resulta que, a liturgia do religioso para atuar no presente, é a de oferecer uma leitura literal do passado e pregar uma hectacombe no futuro. O presente fica-lhe apenas como uma passagem, não um fim. Acontece que o presente chega todo dia. Essa é a dificuldade do discurso religioso.

Deus desapareceu do presente. Entretanto a dona de casa e o padeiro precisam sobreviver no cotidiano. Tomar decisões. É quando os Livros Sagrados nos escapam. Eles podem falar de elementos como Criação, pecado, revelação, Juízo Final – mas se omitem quanto ao que devemos fazer em nosso aqui e agora. Principalmente, quando temos que abrir as portas de nossas vidas ao capital e ao conhecimento.

Entre o Gênesis e o Juízo Final precisamos lidar com o capital e o conhecimento. O capital é ótimo para colocar o fundamentalista com o pé no chão. Por definição, o capital é amoral, por definição a religião é ética. Dois elementos numa mistura impossível. Trazendo a difícil experiência da sociedade que é a da convivência entre a moralidade religiosa e a amoralidade capitalista.

O segundo elemento de presente é o conhecimento. Ele conduz uma relação de causa e efeito da qual os Livros Sagrados não participam. Bastante diverso da escatologia religiosa, promovem um passo-a-passo baseado em tentativa e erro. A sua promessa é a da salvação pela razão. Nesta estrada, levantam arranha-céus e enviam naves para o espaço.

E assim fica o fundamentalismo religioso. Com o destino dos Livros Sagrados na mão, mas sem guia para aturar com o capital e o conhecimento. Sendo essa neutralidade impossível, acaba muitas vezes se associando à amoralidade capitalista e indo contra aos avanços do conhecimento.

O presente da sociedade brasileira são as eleições. Um chamamento a todas as consciências para decidir os rumos do poder. Naturalmente, o fundamentalista quer atuar. É aí que se revela. O seu único instrumento de atuação no presente é a moralidade religiosa. Então, se posiciona diante do aborto, do casamento gay etc. Esquece de que a palavra de Deus é para nos dar consciência crítica. Fica no centro de falar apenas contra o aborto e se exime da criticar o quadro geral das coisas.

O compartilhamento do fundamentalista religioso com a a-ética capitalista é fatal. Levanta-se como se fosse um profeta nos guiando no deserto. Mas, não assume sua leniência com a amoralidade capitalista. Então, em vez de ser um apontador do Reino dos Céus se associa como um defensor do vale-tudo terreno. Aceita sua permissividade e se submete as premissas do poder. A sua indiferença com o conhecimento amputa sua presença na História. Preconiza o Reino de Deus, mas não olha o Reino da Ciência. Ao se distanciar da estrada da razão, cai.

­A queda é no fogo do inferno conservadorismo.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
Esse post foi publicado em 1 - Eleições 2010. Bookmark o link permanente.

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