Rio da Economia

O resgate do mercado financeiro foi a Teoria da Relatividade da Economia (ou melhor, a experiência de Michelson – Morley). Para salvar a crise financeira os governos despejaram um volume nunca visto de dinheiro. Afogaram à crise num mar de liquidez. Fizeram a ‘gráfica’ rodar. O FED resolveu esverdear milhares de folhas e distribuir para todos: bancos de investimento, hedge funds, fundos mútuos, bancos estrangeiros, empresas industriais, seguradoras.

A importância da Teoria da Relatividade está em que retirou o tempo do patamar de uma entidade absoluta e o tornou relativo. A passagem do tempo iria depender do sistema de referência em que o observador estaria situado. A ‘gráfica’ também mostrou como o dinheiro é relativo. Enquanto a ética protestante estimulou um capital associado ao suor do trabalho, de que o trabalho é a fonte da dignidade e da riqueza, a nova estruturação econômica mostrava que a importância não estava no dinheiro, mas na circulação da riqueza. O relevante estava com que o fluxo da economia não parasse, o dinheiro seria apenas uma parte desse processo. Definitivamente aquele seu valor absoluto perdia contexto. Basta à autorização do governo para se dar valor a uma folha de papel em branco.

Semelhantemente a perda de referência para a noção de valor (tipo padrão-ouro) introduziu o relativismo do capital. Em termos de riqueza, o seu jogo de papéis, inflação, moedas podres mostram que – similarmente a invariância da luz – haveria um jogo a determinar o valor econômico. A lógica da riqueza não seria simplesmente a do dinheiro em caixa. Igualmente a Física, haveriam coisas absolutas e relativas.

As origens da Economia ficaram descobertas. No século 19 houve um grande desafio aos exploradores para descobrir as fontes do rio Nilo. Ao historiador, não lhe parecia acontecer essa dificuldade sobre as nascentes. A crise de 2008 havia aberto o panorama. Qualquer um poderia divisar que no alto da montanha onde nasce o rio da economia acontece um fenômeno chamado de a ‘gráfica do estado’. Uma lei da economia é que não se pode gastar mais do que se ganha. Essa enorme quantidade de emissão mostrou que não é bem assim. Existe uma outra lógica da riqueza se estabelecer.

A fonte original havia sido encontrada. A Economia havia encontrado o seu ponto mais alto. A sua magia está que no cume da cordilheira se esconde uma gráfica. O local de onde se começa a transformar uma folha de papel em branco em valor. Acessíveis apenas aos governos essas gráficas ficam encobertas e só aparecem quando o calor de uma crise as derrete. Os trilhões de dólares emitidos e distribuídos na crise de 2008 mostram como circula a riqueza em nossos dias. É como se a primavera chegasse (crise) fazendo com que as geleiras do Himalaia (gráficas) se liquefizessem num rio da riqueza a descer pelos vales para irrigá-los de produtos e empregos. É quando para solucionar a crise grega de 2010, os países da União Européia, assim como fez o governo americano em 2008, resolvem dar uma ajuda de 750 bilhões de euros.

Na ‘gráfica’ fica origem da Economia. O ponto de partida para o investimento. Chega para matar a sede de uma nação. Em 2010, o governo Obama anunciou que os EUA estava com quase 15 milhões de desempregado e liberou 250 bilhões de dólares. Colocou essa quantia no mercado voltada à geração de empregos e infraestrutura. A mostrar se mistificação dizer que o dinheiro gerado na gráfica provoca inflação. Dependerá da política econômica no país.

O historiador havia chegado sobre a existência de uma economia real-virtual e do relativismo do capital. Algo que retirava a Economia de uma visão de secos e molhados e introduzia a perspectiva de dar valor aos papéis, de não respeitar o valor do trabalho.

A ‘gráfica’ mostra como o dinheiro é relativo. Enquanto os físicos dizem que a medição dos fenômenos da Natureza estará a depender do observador, os economistas mostram que o dinheiro aparecerá segundo a vontade política de rodar a gráfica de um país. O fundamental está no propósito de investimento. As origens da Economia está em investir ou investir.

Na Economia a multiplicação dos pães não vem do trabalho mas da gráfica do governo. Por isto, uma nação deve ter sua política econômica, isto é, saber utilizar o seu direto de esverdear folhas de papel de A4. Torná-las um investimento limpo, baseado em condições de servir à coletividade. Não deixar que a política econômica de um BC se aproprie da gráfica para pagar dívidas (juros) a banqueiros, seguradores e outros credores.

Diversamente a ética protestante, a estruturação econômica liberal introduz o relativismo do capital. Esse era o desafio a ser entendido. Enquanto a Natureza aceita a relatividade de suas grandezas físicas sem violar o trabalho (conservação de energia), o perigo estaria em introduzir uma geração de riqueza ao sabor das oportunidades financeiras e de uma literatura econômica virtual. Deixar o virtual superar o real.

Após compreender a existência de gráficas a sua preocupação volta-se a condução do rio da economia. Após haver discutido sobre as origens e a relatividade do capital o seu interesse se volta como a dinâmica econômica se processa. Enquanto Adam Smith e Marx partiam da noção de trabalho, considera a noção de virtual. A sua percepção retorna à existência de uma economia real e outra virtual. Haveria uma economia virtual e outra real para serem encaixadas. Esse seria o seu ponto de vista. Observa que, apesar de crédito e consumidores serem fundamentais a construção da riqueza, tudo começa na economia virtual.

A sua reflexão está em que, o capitalismo vai muito além do que acumulação da riqueza ou manter o cambio flutuante, gestão rigorosa na taxa de juros, metas de inflação e de superávit fiscal – existe uma delicada relação entre não-trabalho e trabalho, entre gráfica e consumo, que deve ser arquitetada. Estamos num tempo em que sem o virtual não se gera o real. A História mudou, não seria mais o trabalho a gerar dinheiro, mas ‘gráficas de não-trabalho’ a gerar trabalho. Assim, deixa os séculos 19 e 20 para trás. No lugar dos ‘trabalhadores do mundo’, reflete: ‘virtualistas do Mundo’. Existe algo diferente acontecendo. Ainda lhe caberia uma nota: ‘não querer se preocupar com o mundo virtual – poderá destruir o mundo real da produção e emprego’.

A sua percepção volta-se a que no natural jogo econômico, a evolução dos preços depende tanto do não-trabalho quanto do trabalho. Relembra as mascaras do teatro grego. Considera que, em vez de encobrir a verdade, as máscaras a ressaltam. Só as máscaras (ficção) chegam a roçar o rosto da verdade (significado, valor). Inocentemente, o puro trabalho nos cega: nos faz acreditar que através dele vemos alguma coisa de verdade. Ilude, porque a verdade nunca se deixa ver.

Existe algo que vai além do código genético, a imaginação. Vemos o Mundo através de nossos olhos, escutamos com nossos ouvidos, mas o sentimos através de nossa imaginação. São os imaginários que nos conduzem ao que somos e aonde estamos. São as janelas pelas quais recebemos o Mundo. São eles que nos dão ‘um certo olhar’, que em vez de comandar as nossa células, conduz a nossa cabeça.

Desta maneira considera que não poderá haver Economia sem imaginários, e assim, são eles que naturalmente estimulam essa economia de papéis. Se pergunta se toda a riqueza perdida pela crise realmente exista. As estimativas variam entre 30 a 50 trilhões de dólares. A partir de junho 2007, em apenas um ano e meio, os EUA perderam cerca de um quarto de seus haveres financeiros e valores imobiliários. A prova de uma realidade conectada com a virtualidade, em Economia, é a de ser real quando os papéis em circulação podem ser trocados por uma moeda corrente.

Entendia que não lhe cabia ter a palavra final, se seria uma questão para estimular investimentos ou jogos financeiros. A sua consideração estava em somente apontar a existência de uma economia virtual sem a qual a real não se manifesta. Considerar que, muito antes do trabalho é a economia virtual que propulsiona a indústria e o comércio.

As doses inéditas de injeção da liquidez pelo Fed vieram a confirmar sua tese de que existe uma economia virtual que antecede a real. Desta vez, o Everest parece ficar nos EUA. A origem da maioria dos papéis exóticos criados em Wall Street e vendidos principalmente a chineses vem do enorme déficit dos EUA. Para fechar suas contas, argumenta-se que o país é obrigado a atrair 3 bilhões de dólares por dia de investidores estrangeiros. Sem esse fluxo de virtualidade, a realidade econômica americana se desconstrói.

Sendo assim, a recuperação da atividade econômica (produção e emprego) vem de uma ação virtual. Por exemplo, juros muito baixos. O baixo custo do dinheiro e a liquidez abundante derrubaram novamente a cotação do dólar no mercado das moedas, empurraram para cima o preço das commodities, fizeram disparar os preços das ações nas bolsas, estabilizaram a demanda de bens e serviços e deram início à recuperação da atividade econômica.

A ação do virtual sobre o real não seria mais um assunto de literatura. Entretanto, a dificuldade dessa relação virtual-real, não-trabalho – trabalho está em criar uma economia com andar de cima e outro de baixo. Embora se tenha tornado inegável, a presença de formas de expressão do valor nesta composição (muito difícil não aceitar) a questão estará em sua ação. Não deixar que o andar de cima predomine. De que patrícios improdutivos se apoderem da riqueza produzida.

Não sendo uma ciência natural a Economia depende das verdades contidas na mente humana. Ela precisa existir entre os territórios virtual e real. A função da mente humana está em nos levar além do natural. Para isto, nos energiza com expectativas, gera processos e transforma a realidade. Neste espírito a Economia toma seu caminho. O rumo é o de manter os estímulos em curso. Deixar que os inventos do capital financeiro se tornen impulsionadores do processo de expansão da riqueza.

Essa é uma questão que chama a razão do historiador. Um assunto para ele refletir profundamente. Antes de precipitadas tomadas de posição, cabe a ele refletir, sobre os possíveis caminhos da História a partir desse novo jogo de andares para o valor econômico. Não pode mais negar os lados real e virtual das coisas. Mas a questão está em como percorrer esse caminho. Não deixar que aconteça a desconexão entre os ativos financeiros e os ativos reais (os bens e a base produtiva).

De três andares esse rio traz vida ao dinheiro. De seu nascedouro em campos virtuais vem tomando forma até chegar a sua realidade de troca de mercadorias no andar de baixo. Contrariamente do lugar comum, não se inicia pelo bolso, nasce de uma folha de papel em branco que é obrigada a se escoar através das necessidades que a mente humana lhe obriga. A folha de papel A4 é colocada no mercado virtual para ver se depois consegue se tornar um ativo no mercado real. Ganhar poder de compra. Até ganhar vida própria pelo poder de troca que estabelece. Sem nada adquirir continuará em branco: o valor do dinheiro está em sua capacidade de compra.

O objetivo deste rio da Economia é o de trazer vida econômica. Fazer com que um simples papel A4 se transforme em poder aquisitivo. De uma folha de papel em branco se dar vida ao PIB de um país. Por exemplo, o banco Goldmam Sachs prevê que a China deverá em 2027 passar o PIB dos EUA. Um processo a depender menos do rio Yang-Tsé e mais do rio econômico que a China for capaz de prover. A partir de papel A4 promover bens de consumo e capital, aumentar o mercado interno e exportações. Irrigar um mercado.

Esse é o rio a transportar a palavra econômica. Transportar a palavra econômica entre o céu e a terra que permeiam a mente humana. Dada uma inicial folha de papel em branco fazer com que suas águas cheguem aos consumidores na forma de um produto (nem sempre de natureza real). Da virtualidade se construir um poder de compra efetivo, o qual poderá ser trocado por moeda corrente.

A Economia não se move apenas com dinheiro vivo. Essa é a ilusão da dona de casa. Acreditar que o poder de troca da Economia é simplesmente baseado com o que temos no cofrinho. Não compreender o jogo de expectativas que faz a economia fluir.

O dito mercado é a passagem desse rio da economia. Um construir o fluir da riqueza a partir de gráficas e territórios virtual e real. Esse é o rio que chega para matar nossa sede para empregos e consumo. Embora não seja sagrado como o Ganges, salva vidas. Todos (não apenas a dona de casa) querem se banhar neste rio.

Essa compreensão da dinâmica econômica o levava a rever certos conceitos a respeito do fluxo da riqueza. Normalmente os economistas caracterizam diversos fatores a construir o fluxo da economia: excesso de consumo, superprodução, perda de eficiência no setor produtivo, gargalos físicos na infra-estrutura, decisões equivocadas. Consideram que existe toda uma ‘climatologia econômica’. Contrariamente, acreditava ter chegado a uma síntese. Em vez dessa usual climatologia macroeconômica iria propor uma dinâmica econômica virtual-real a partir da qual o dinheiro encontra o seu poder aquisitivo.

E resolve rabiscar:

O fluxo da economia está em transformar uma folha de papel em branco em poder de troca.

O historiador ficava pensativo. Encontrara neste desenho simples, sem qualquer pretensão estatística ou ideológica, passível de ser desenhado em qualquer papel de açougue, a sua primeira fotografia do sistema. Deixa para trás aqueles articulistas neoliberais que o sistema alimenta e aqueles marxistas encapsulados e olha para um percurso econômico que sai do virtual para o real. Mostra que a Economia não começa pela base. Como os Livros Sagrados e os rios, ela vem do alto. Esse panorama ficou visível quando a catedral do neoliberalismo ruiu, teve de chamar o poder público para intervir e fazer com que recursos públicos fossem utilizados para atender necessidades privadas. A derrocada histórica dos mercados acionários iria obrigar com que os governos fizessem o resgate do sistema financeiro. Deixou claro que no alto da montanha o governo guarda uma máquina que transformava folha de papel em branco em valor.

Localiza um primeiro território onde se desenvolveu o capitalismo. Entende que o pulsar do capitalismo não está no trabalho, mas na economia do governo e nos papéis dos bancos e das bolsas. Sem esse lado virtual, a economia não funciona. Então, observa o escoamento do rio da Economia: o fluxo econômico virtual-real conduz dois tipos de dinheiro: nascente e vivo. O dinheiro nascente é o formado pelos papéis econômicos. O dinheiro vivo o que chega aos bolsos através de salários, ao mercado em sua capacidade de compra-venda, e consegue ser armazenado em poupanças. Assim como a matéria faz sua passagem do inorgânico para o orgânico, a riqueza faz do virtual para o real.

Aos poucos o historiador ia decifrando o ‘rio da riqueza’. Entendia que numa época capitalista era fundamental se compreender esse percurso. A dona de casa quer sempre saber como a economia vai, mas não se pergunta de onde vem, nem como o dinheiro se transforma em real. Também nem os economistas se preocupam em os explicar como a partir de um rio econômico consegue-se dar valor a uma folha de papel em branco.

Considera que a passagem do virtual para o real deve ser vista como uma evolução da economia. Convencer sobre a existência de uma operação interessante e que vai gerar bons ganhos é uma performance do capitalismo comparável a da literatura. A sua função é a de capitalizar ações que ajudem o crescimento de empresas e empregos. Hoje para a realização de um determinado projeto uma companhia deve sair a campo em busca de sua capitalização.

Entende-se que a Economia necessita de seu lado real e financeiro assim como a literatura necessita de realidade e ficção. A partir de gráficas, bolsas e bancos constituem todo um lado virtual da riqueza. Embaixo na planície necessitará de irrigar empregos e consumos. Neste ímpeto, de fazer com que suas águas fluam, a Economia se une ao capital. Associa-se ao chamado espírito capitalista. Contudo, não são a mesma coisa. Enquanto a essência do capitalismo é funcionar como um sistema de trocas amoral voltado ao lucro, cabe a Economia fazer escoar um rio da riqueza. São duas coisas diferentes, mas que devem seguir no mesmo curso. O capitalismo trazendo a preocupação do lucro, a economia a da circulação da riqueza.

A função deste rio é a de dar vida a economia: gerar o PIB de um país. O PIB de um país representa a sua manifestação de vida econômica, enquanto isso as ditas moedas podres são aquele dinheiro virtual que não consegue ganhar poder de troca. Um dinheiro nascente que morreu no caminho. Da folha inicial resulta em dinheiro com poder de compra e outro que se torna um ‘papel tóxico’.

Nesta sistematização, no seu andar de cima, a Economia promove virtualmente créditos através de gráficas, bancos e bolsas. A partir desse rio econômico ela atinge planícies e vales indo fertilizá-los com empresas (públicas e privadas), empregos, produtos e consumo. É quando a economia virtual toma forma. Cria-se o trabalho. Um novo movimento acontece. Milhares de pessoas acordam, trabalham e voltam para cama. Ao final geram produtos devem ser sempre renovados, o consumo uma obrigação e a poupança uma necessidade de segurança. Contudo, os consumidores são os grandes propulsores deste rio econômico. Nos EUA as despesas das famílias respondem a 70% do PIB americano.

Entre o virtual e o real não apenas corre as letras da literatura como os valores da economia. Propõe-se papéis a subscrever dinheiro futuro e em vez da tinta de caneta escoa-se um rio. A dinâmica virtual-real da economia está em transformar esse dinheiro futuro em cash. Da abstração chegar a troca. Inserir um universal poder de compra.

Outro aspecto dessa dinâmica evolutiva é o de se apoderar do custo do dinheiro. A grande velha novidade está no uso o céu aberto de um novo elemento de virtualidade explicitado pela crise financeira: a gráfica do governo. Antecede bolsas e bancos na prática da economia virtual. A mostrar que a questão de dinheiro fácil e barato é mais política do que econômica. Aí é que entram os bancos associados às gráficas do governo. Criam juros e de cara se beneficiam dos lucros financeiros. Sempre com a estratégia de que faz isto no objetivo de oferecer crédito a sociedade. No refrão de que, como a construção da vida precisa de água, a da riqueza de crédito.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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