Alquimia econômica

Cada área de conhecimento possui seu contato com o mistério. Ao ter consciência do nada e da coisa a mente humana sente-se chamada a desvendar o mistério que a cerca. Existe uma estipulação inicial, o momento da criação, que a nossa mente possui o privilégio de participar. O momento em que o zero se revela em alguma coisa. A Física através do Big Bang estuda como a partir de um ponto originam-se planetas e galáxias; a Química a passagem do inorgânico para o orgânico; a Biologia da matéria para a vida; a Sociologia do individual para o coletivo; as religiões do corpo para a alma.

– E a Economia? – pergunta-se.

Toda área de conhecimento quer localizar um começo. Contudo, enquanto os cosmólogos e seu Big Bang não conseguem localizar o iniciador do Universo, os economistas parecem não ter esse problema. Existe uma diferença básica entre os cenários do Universo e do Mercado. Ao primeiro, os inícios é uma grande incógnita. Embora o notável sucesso da Teoria do Big Bang, ela não consegue discutir o conceito de criação. É uma teoria que não consegue explicar quem deu corda para o Universo funcionar. Enquanto isso, a Economia não precisa de Deus, átomos, células para explicar sua origem. A pergunta de Isaías: ‘Quem criou tudo isso?’ (Isaías 40:26) possui uma resposta que não necessita de indagações teológicas, filosóficas ou científicas:

– Basta se apresentar uma folha em branco!…

Enquanto a ciência moderna não possui observações capazes de mostrar como algo poderia ter vindo do nada, a Economia consegue localizar o seu exhinilo (nada absoluto). Está numa folha de papel em branco. A partir daí toda uma riqueza abre-se a ser gerada. Não faltam alquimistas em sua procura. Todos querem aportar aos inícios da riqueza. Saber quais as palavras mágicas que se deve dizer para que a partir de um nada se ganhar valor econômico. Qual o seu abra-ca-da-bra?

A criação não é uma idéia nascida do impossível. É algo de origem no acreditar em oportunidades. Entretanto, o desafio da Economia fica em como a partir dessa folha se consegue gerar valor econômico. Trazendo como mistério essa passagem de uma simples folha em branco para valor econômico.

Não faltam partidos políticos e bancos querendo se apossar dessa passagem da Economia. Não faltam agencias financeiras a estabelecer o valor das coisas. Não faltam Mestres do Universo revestidos de sacerdotes. Não faltam economistas de plantão. No lugar de unir o céu com a terra, todos querem estabelecer o valor econômico a partir de uma folha em branco. Todos no desejo de se apossar desse toque mágico.

Existe um segredo do Mundo a ser revelado. Existe uma criação entre o nada e a coisa a ser internalizada. A Economia não pode ficar a parte desse movimento. Caso contrário ficará fora do centro das coisas. O historiador percebe essa situação. A nossa época é a da alquimia econômica. Neste intento, a sua primeira conversa é com sua irmã a Literatura. Ambas vêm do mesmo ventre. Dali, daquela folha em branco, criam suas constelações de livrarias e bancos. Mostram como do nada é possível gerar o tudo. Contudo, a Economia não pergunta o que é verdade? A sua questão é sobre valor. O seu mistério está em desvendar o valor econômico das coisas.

O mistério nos chama. Essa possibilidade de se participar da criação da Economia chama os mais variados personagens e instituições. Não estamos mais nos tempos sonhadores dos alquimistas da Idade Média, hoje em dia os homens sabem que é possível relacionar o nada com o valor econômico. Muito antes de se colocar os olhos no lucro, deveríamos ir encontrar o seu lado superior desse encontro, o de invocar a manifestação econômica.

Chegamos ao momento de olhar a Economia a partir de sua alquimia. Assim como a Física montou o LHC para pesquisar os momentos iniciais do Universo, a crise econômica aberta em 2008 nos leva a olhar sobre a questão da alquimia do valor. É um tempo a pensar sobre os lados invisível e visível do econômico; antes de se entrar na sociedade, devem entrar num lugar que permita a nossa mente ficar entre o nada e o existir; antes de das trocas, precisamos ativar a consciência; antes de partidos políticos, os homens precisam construir templos.

A revelação do valor econômico numa folha de papel em branco nos leva a lembrar o fenômeno religioso. A essa mesma vontade que temos de ligar nosso cotidiano ao divino. A diferença ao penetrar nesta universalidade das trocas está em que, enquanto o Livro Sagrado nos levam do chão para as alturas, o valor econômico vem justamente para nos deixar satisfeito com o estado laico das coisas.

A alquimia da Economia é manifestar valor a partir de uma folha em branco

Muitos consideram que a Economia vem para estabelecer um Mundo desacreditado, distante da prática religiosa, trazendo um distanciamento dos momentos litúrgicos. Mas esquecem que, igual a uma mãe, ela têm de dar sentido ao nascimento do valor econômico. A Economia vai além de ser uma ciência de oferta e demanda. O compromisso de a sua dinâmica não necessita apenas do elemento crédito como o do valor econômico. O seu significado antecede o pressuposto do lucro.

A transformação de uma folha em branco em valor econômico é um dos assuntos mais delicados de uma sociedade. Ninguém pode ficar indiferente a essa alquimia acontecida. Precisamos encontrar um sentido. Existe sempre um tesouro divino escondido na palavra escrita. Na Bíblia, a autoridade não é o livro em si mesmo, isto é, o papel e a tinta, mas o próprio Cristo.

– Qual a palavra sendo transmitida numa folha econômica?

O historiador observa que o delicado momento da criação deve ter um templo. Quer refletir em termos de templos. Sabe que vivemos numa época em que no lugar do valor, exaltamos o lucro. Deixamos as nossas vísceras estabeleceram o valor econômico. Compreendemos a Economia somente em termos de lucro. Deseja encontrar uma missão para a palavra econômica.

Um nascimento chega para ser algo mais do que provocar metabolismo ou uma troca. Seja a vinda de uma criança ou de uma folha A4 em dinheiro, existe uma evocação a ser feita. O seu desejo se torna erguer um templo para o valor econômico. Considera que antes de bolsas devemos erguer templos. Nele é que se encontra a verdadeira expectativa. O homem é um animal a procura de uma coisa maior.

 

 

A missão do governo é a de estabelecer o sentido de valor econômico de uma nação. O governo tem sempre o direito de abrir uma Casa da Moeda. Enquanto resta a sociedade a oportunidade de abrir açougues e supermercados, ao governo é dado o direito de nos alimentar nas origens da economia. O Tesouro nacional deve ser o único a transformar folhas de papel A4 em valor econômico. Uma manobra comum do governo para não deixar a economia cair está em injetar dinheiro público no sistema financeiro ou manipular a taxa de juros.

Essa é a queda da Economia: privilegiar o chamado espírito capitalista em relação à evocação do templo. A achar que o único princípio a ser seguido é o da liberdade capitalista. Passar ao largo da sutileza do valor econômico. São muitas as crises econômicas (conta-se que cerca de 140 desde Marx), mas a sua principal ausência está em não erguer uma evocação acima do mundo dos homens. Sucessivamente estão sempre a destruir os valores econômicos constituídos.

Percebe o quão difícil em nossa época está em entrar no Templo da Economia. Todo objeto deve vir de algum lugar, e por isto, quando ainda não sabemos a sua origem, levantamos um templo. Qualquer pessoa que tenha bolso gostaria de ouvir no templo alguma palavra sobre valor econômico. Então, embora não saiba onde esse templo fica procura seus sacerdotes, os economistas. Infelizmente, logo nota que os economistas são os primeiros a sangrar suas origens. Em vez de se alimentar de mistério preferem o discurso da comercialização. A sua proposta não passa por levantar um templo, a sua única intenção é a de constituir um mercado e fazer lucros. E assim fica a Economia, como uma área do conhecimento que não identifica um além, realiza-se apenas na sua expressão terrena de mercado.

Deseja encontrar um outro lugar. Escolhe outro lugar a ser investigado: os bancos centrais. Para a Economia, o mistério de uma nação não está na pujança de sua geografia nem na engenhosidade de seu povo, mas na estrutura de seu Banco Central. Ele é que cuida (ou deveria cuidar) da estabilidade dos preços, pleno emprego, metas de inflação, colapso de mercados. A autonomia operacional de um banco central se funda na idéia de que a estabilidade dos preços é um bem público essencial para o crescimento, para os avanços sociais e para a estabilidade política. A sua função é a de compreender o conjunto de riscos para tornar a economia estável. Ser um gestor, no sentido de saber represar a circulação da riqueza.

O BC é a referência da Economia. O seu Pavilhão Dourado. É ali que se evoca todo o seu mistério. Dele parte a autoridade monetária. É ele que conduz a economia de um país. A sua ação é a de cuidar da política monetária e da taxa de juros de curto prazo. Ali define o bem e o mal. Inflação, deflação, emprego, desemprego, produção, estagnação são definidas pelas decisões de um BC.

O seu big-bang se inicia pela autorização da compra de títulos públicos e emissão de cédulas. Desta forma o Fed (banco central americano) interveio na crise de 2008, o Banco Central Europeu na de 2010 e o Banco Central do Brasil se reúne a cada mês para estabelecer a taxa de juros. O fato é que a noção de valor econômico começa num Banco Central. Entretanto deve-se salientar que a política de um BC é monetária. A sua proposta não é a de fornecer um investimento voltado a infraestrutura e a produção. A sua principal preocupação está com o lado virtual da economia.

Embora os bancos centrais devam ter metas estabelecidas pelo poder político, as suas formas de agir vem de acordo com as propostas de cada país. Enquanto nos EUA, o Fed persegue o duplo objetivo de pleno emprego e estabilidade de preços, no Brasil o mandato do BC é cumprir a meta de inflação. Trazem os sinais da cultura e do objetivo de cada povo. O BC alemão coloca a estabilidade dos preços acima de tudo, herança vinda de uma Alemanha devastada pela hiperinflação nos anos 1920 e depois da Segunda Guerra. Há uma expressão que define a relação da Alemanha com seu BC: ‘nem todos os alemães acreditam em Deus, mas todos acreditam no Bundesbank (BC alemão).

O fato é que o capital possui vida própria. Sua existência proclama o ‘Eu sou o que sou’. Não depende das leis da Natureza ou de teleologias religiosas. Na Bíblia hebraica, Deus descreve a si mesmo como ‘Eu sou’ (Êxodo 3:14), no Novo Testamento Jesus disse ‘antes de Abraão nascer, Eu Sou’ (João 8:58). Paralelamente, o capital também entra como um outro elemento de primeira causa. Só que o seu ‘Eu sou’ é para ser investigado.

A causa capitalista é um desafio para os homens da época. Precisamos ir além de que Marx disse isso ou Marx não disse aquilo. Muito antes do trabalho, das criações científicas, de ficar-se discutindo saúde e educação, existe um ‘Eu Sou Capitalista’ a ser entendido. O momento não é mais para sermos críticos ao capital. Assim como no passado, muitos negaram a Deus (‘Deus não existe,’ Salmo 14:1a) e ao capital, e de nada adiantou ,o século 21 e sua Era do Conhecimento desejam perguntar a esse ‘Eu sou’:

– Quem você é?

– Eu sou o intermediador do Mundo – apresenta-se o capital.

Todos (que podem) querem participar deste ‘Eu sou’ do capital. Não apenas os BC mas também os grandes capitalistas desejam participar (se aproveitar) das origens do capital. O fundo Soros Fund Management LLC, do bilionário George Soros, administra mais de US$ 25 bilhões em recursos. A sua proposta é a de investir no berçário das folhas de papel A4. Apostar enquanto a riqueza ainda está definida por papéis.

O historiador percebe o quão fechada se tornou a discussão. O tema valor econômico é assunto reservado apenas para poucos privilegiados, não para o povo. Não aceita essa situação. A pergunta que tem é: qual o direito de uma Casa da Moeda ou de BC de se colocar acima do bem e do mal, os donos da alquimia econômica. Embora a missão de um BC seja a de coordenar a circulação da riqueza de uma nação, seria muita inocência creditar em seus economistas como guardiões de templo. Uma coisa é ter legitimidade para decidir sobre a taxa de juros, outra é ter divindade. Embora a Economia guarde relações entre o céu e a terra, os seus economistas apenas se propõe a serem engenheiros do lucro do capital.

A todo mistério existe uma mistificação. Compreende como o Templo da Economia ficou ao domínio de sacerdotes do lucro do não-trabalho. Entende que seus economistas haviam levado longe demais a mistificação do valor econômico. São os velhos fariseus sempre a dizer que investir na alma não é lucrativo. Criando a mitificação do milagre de gerar riqueza através do não-trabalho.

Decide-se por si próprio desvendar a noção de valor econômico. Não quer mais ouvir falar dessas economistas de plantão, sempre dóceis aos interesses das palavras. Não admite que o trabalho cotidiano torne-se vilipendiado por cultos (e lucros) de não-trabalho. Sabe que, ao final, é um BC que decide sobre as relações de trabalho e não-trabalho de uma nação. Mas, acredita que as origens da Economia devam estar em valores culturais do que em BCs:

– BC não é nenhum Pavilhão Dourado… – diz para si mesmo.

O historiador sai em busca de sua resposta. Em vez de ficar discutindo sobre os caminhos apontados pelos economistas de nossa época, prefere ir entender sobre o percurso da riqueza. Delinear o mapa de sua dinâmica capitalista. Observa que, apesar de todos os pecados do lucro, existe um lugar a ser respeitado. Esse local chama-se virtualidade. Embora não venha a ser um templo, é um local que requer muita liturgia par ser penetrado.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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