Conflito virtual-real

A História não acabou, é um caderno de muitas folhas. O nosso tempo de vida não permite participar de muitas páginas, mas às vezes, temos a sorte de estar numa daquelas folhas cheia de acontecimentos. Dali, subitamente, o historiador abandona o seu lugar e vai para a janela. Existe uma História passando que não quer perder. Impelido, sentia-se ter ganho força para se libertar desse grilhões que amarram, que promulgam que a História acabou, de que vivemos num vazio, de que tudo se tornou muito complexo. É quando consegue voltar a Marx e seu dogma capital-trabalho, e observar que uma página havia sido virada.

O livro da História mudou de página. A economia não vem para discutir o divino e o terreno, à esquerda e a direita, mas o andar de cima e o de baixo. Toda essa discussão de crise econômica o havia levado a entender que uma nova consideração deve ser feita. No desenvolvimento dessa economia virtual a adicionar-se a real, torna-se mais significativo considerar a relação virtual-real da economia do que a relação capital-trabalho. Existe uma outra forma de criação da riqueza.

Houve uma época em que se discutiu muito a questão do trabalho. Postulava que qualquer atitude que não o respeitasse seria taxada de uma aviltante intervenção capitalista. Baixo salário, desemprego tudo era culpa do capitalismo. Nos séculos 19 e 20 não faltaram propostas de se abolir o capitalismo. Contudo, o capital nunca deu muitos ouvidos a seus opositores, e assim, a relação capital-trabalho ficou mais como um modo de refrear a ganância do capitalismo do que a compreender a sua natureza.

O desejo do historiador está em primeiramente sair da discussão capital-trabalho. Dobrar essa sina que ainda permeia esse nosso tempo de vazio. Embora já estejamos numa época com novos aspectos, ainda vigora o refrão de salvação marxista e da esperteza capitalista. Nesta situação, busca explorar novas fronteiras de formação da riqueza e penetrar neste novo panorama: o de um fluxo econômico de cima para baixo.

As perspectivas virtual e real que pertencem à natureza da mente humana acabaram penetrando na Economia. Acabaram por caracterizando aquilo chamado de andar de cima e baixo. O de cima coloca-se diante da sociedade como o provedor de créditos: aproveita-se da própria subjetividade do plano virtual para evitar os mais diversos tipos de papeis econômicos. O de baixo utiliza-se da economia para viver, coloca-se diante da sociedade como provedor de labore, o seu desejo é dar segurança de emprego e consumo.

Aos poucos ia compreendendo sobre a circulação da riqueza. Invés da secular oferta & procura observa que havia um lado virtual e outro real a impulsionar os acontecimentos econômicos. Fazendo com que, a partir de expectativas e consumos diversas atividades fossem realizadas. Mas logo entendeu, seria melhor chamá-los de andar de cima e de baixo. Então, em vez de burguesas e operários, haveria uma tchurma a querer se apropriar do valor econômico e deixar para a outra o trabalho e a criatividade.

Dois sistemas se organizam. Percebeu que os modos da formação de riqueza diferem qualitativamente nos andares. Um a favorecer o trabalho, outro o não-trabalho. Baseado em expectativa, tipos de papéis são gerados; baseado em suor, projetos são erguidos. O resultado é que nem só de trabalho vive o lucro. Existe um outro lado a ser contado que os 150 anos de marxismo não foram capazes de sistematizar.

Um novo paradigma acontece. Nesta economia virtual-real, o andar de cima se propõe a definir o valor e deixa para o de baixo a criatividade e o trabalho. Em princípio deveria haver uma ‘alfândega’ regulando essa passagem entre o virtual e o real. Acontece que essa circulação de riqueza teria no lucro o seu progenitor. Uma personagem sem fronteiras que se estabelece onde houver proveito. E o lucro não faz muito aquele tipo de filósofo a querer mudar as estruturas do Mundo…

Deste modo, o domínio do andar de cima e seu capital virtual constituiu a história da riqueza principalmente após a derrocada da União Soviética. Há um consenso de que, essa liberdade de gerar papéis virtuais resulta dos excessos da desregulamentação de mercado promovida por Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 1980 e, apoiada por Bill Clinton nos anos 90, a qual permitiu a economia flutuar acima desse terreno sublunar por onde se move o trabalho. O capital ficou acima da Natureza, do trabalho do homem, da ciência. Esses três elementos ficaram sob o domínio capitalista. O capital se tornou um ‘Eu sou’, acima do bem e do mal, as ordens dos Mestres do Universo.

A economia financeira deve ter como seu produto natural o inevitável ato de emprestar. Mas, a sua liberdade de autointeragir a torna um sistema lucrativo em si mesma. Fazendo com que as cédulas deixem de ser a única maneira de a Economia circular sua riqueza. Ao lado do dito dinheiro vivo se substancia um dinheiro virtual. Resultando que, para obter lucros não se necessita submeter à alfândega da ponte de investimentos. Bastam jogar com papéis, juros e câmbios que vantagens econômicas são obtidas.

O próprio Nietzche no seu ensaio ‘Wagner em Bayreuth’, em 1876, já apontava para essa questão do excesso capitalista: ‘Outrora se olhava de cima, com franca superioridade, para os que lidavam com o comércio do dinheiro, mesmo quando se precisava deles: afinal, admitia-se que a sociedade deve ter suas estranhas. Atualmente eles são o poder dominante na alma da humanidade moderna e seu mais ávido extrato. Sua onipresença é de uma voracidade sórdida, insaciável. Nossa época não tem nenhuma consciência dessa inversão de valores. Mas é uma época vulgar, pois venera o que as nobres épocas anteriores desprezavam’.

A origem das crises está no lucro querer se realizar somente no lado virtual. A economia virtual deveria ter como tarefa estimular o risco e prover o crédito. O esperado de uma boa regulamentação seria que o crédito vindo do andar de cima estimule a economia com produção e consumo e ainda deixasse uma poupança capaz de fazê-la retornar para o andar de cima. Criar uma ponte de mão dupla entre o virtual e o real.

O historiador percebe que o século 21 não pode mais se satisfazer com as premissas do Manifesto Comunista de 1848. A relação de disputa não é mais entre capital e trabalho como o marxismo determinava. Vivemos o conflito entre a expectativa e a produção, o virtual e o real, orquestrados pelos andares de cima e de baixo. Começava a entender que existe uma contradição na sociedade maior do que a mais valia de Marx. Era o antagonismo de andares a ser resolvido por uma alfândega impotente de mudar os costumes de Wall Street.

Compreende que para Marx a circulação da riqueza está ligada a luta de classes, deste natural choque entre o capital e o trabalho através das classes burguesas e operárias. Mas sente um certo mofo de passado em prosseguir essa reflexão. Relembra então o filósofo Leandro Konder, um dos maiores divulgadores do marxismo no Brasil, que adverte a respeito da sacralização da obra do alemão: ‘Marx pensou com o material disponível no tempo dele. É um homem do século 19. Hoje, nós temos problemas aos quais Marx não traz nenhuma contribuição de peso’.

Saímos do conflito capital-trabalho e entramos numa política econômica baseada na contradição cima-baixo. Entramos numa época em que enquanto o andar de cima consegue emitir 600 trilhões de dólares o de baixo se limita a 60 trilhões de dólares (somatório dos PIB mundiais). Portanto, na proporção 10 para 1 assistimos o predomínio completo do lado virtual sobre o real fazendo com que o andar de cima acabe prevalecendo sobre o valor econômico. A realidade de um produto ou serviço não é o que conta. O lucro de seus papéis se propulsiona sozinho, basta estabelecer expectativas.

Estamos numa época em que no lugar da mais-valia surge uma virtualândia econômica. A riqueza não querer circular do virtual para o real. Existe uma especulação econômica mais lucrativa do que a de produzir motores e levantar aviões. Basta promover uma oferta pública de papéis que as coisas acontecem. Fazer com que expectativas sobre papéis financeiros gerem mais lucro do que o compra e venda dos secos e molhados. É o início da coisa. Ao não-trabalho se sobrepor ao trabalho, cria-se uma Virtualândia.

A realidade econômica se tornou a de promover preços via ‘mercados de futuro’. A sua estratégia está em sempre criar argumentos para que ‘lucros virtuais’ sobrepunham a ‘lucros reais’. O Goldman Sachs se tornou o exemplo típico dessa deterioração. É acusado juridicamente de deixar de assumir riscos prudentes e partir para recompensar banqueiros e operadores por assumir riscos com o dinheiro de outras pessoas. A verdade é que não fez nada diferente de outras empresas de seu porte.

No lugar da exploração capital-trabalho essa economia virtual-real prefere agir através de uma Virtualândia. O desafio de nossa época não está em se discutir as relações capital-trabalho ou cerca das desigualdades sociais. Primordialmente, devemos enfrentar essa dinâmica cultural econômica. Compreender seus possíveis caminhos. São muitos os interesses em jogo nesta estrada entre o virtual e o real da vida econômica. Precisamos discutir esse novo ciclo de encaminhamento do capital. O seu princípio não está na exploração do trabalho, mas de empréstimos. A sua finalidade é a de endividar a todos: governos, empresas, pessoas físicas. Em vez de apontar canhões, a sua estratégia está em que o retorno sobre o dinheiro emprestado seja maior do que o custo do serviço da dívida.

Essa é a nova estratégia do sistema. No lugar da mais-valia de Marx, o princípio se tornou em deixar todo mundo endividado. Por que as pessoas, empresas e países tomam dinheiro emprestado? Acreditam que o retorno sobre o dinheiro emprestado será maior que o custo do serviço da dívida. Mas ao final, não é bem assim. Aquele X emprestado não traz um lucro Y maior que X, fazendo acontecer a rolagem da dívida. O resultado é o enriquecimento constante do credor via não-trabalho.

Da rolagem, dívidas gigantescas seguem crescendo, que levam a novos empréstimos, e assim, gera a roda da fortuna da economia virtual. O sistema se inicia com uma locupletagem entre o governo e o banco. O banco empresta e o governo paga juros. Neste simples mecanismo gera-se uma classe dominante que se enriquecesse sem necessitar do trabalho e da criatividade.

Essa é a nossa estratégia de domínio. No lugar da mais-valia surge uma virtualândia econômica. O seu princípio é de choques econômicos. Através deles estratégias virtuais se propõem reduzir a dívida, a demanda, déficits fiscais etc.

 

Anúncios

Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
Esse post foi publicado em 5 - Economia. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s