Economia virtual-real

A interferência da mente humana está em não deixar o natural mais sozinho, trazer-lhe a companhia do virtual e do real. Enquanto o nosso corpo vem da Natureza a nossa mente se elabora em estados psi, fazendo com que a nossa vida acabe sendo uma viagem entre as leis naturais e as imaginações que constituímos. Somos seres do meio.

Sendo assim, numa época da cultura, torna-se propício o surgimento de uma nova correlação entre o natural, o real e o virtual diante do processo econômico. Uma mudança de fase acontece. Até então, o estímulo econômico vinha do real para o virtual, isto é, a partir de matérias-primas, imóveis, tecnologias e outros ativos economicamente definidos estimulava-se a criação de papéis. Atualmente, esse processo se inverte. A partir de expectativas virtuais criam-se processos reais. Por exemplo, a partir de um financiamento imobiliário podemos duplicar o número de imóveis disponíveis na praça.

Estamos numa época em que a formação da riqueza passa por essa dinâmica cultural capitalista. Entre o natural, o real e o virtual, a idéia da cultura está justamente em a partir da imaginação transformamos a realidade. Fazer com que a partir da estipulação de virtuais cheguemos a uma representação do natural através de reais. Essa é a época. A da existência do virtual. Ele chega para anteceder ao natural.

A Era do Conhecimento deve ser primordialmente entendida como o momento em que a virtualidade se estabelece como a fonte das coisas. Uma situação que permeia todas as áreas de conhecimento: Literatura, Pintura, Biologia… e até a Economia deve viver sob essa condição. Embora cada uma tenha a sua realidade a enfrentar (experimental, social, econômica) o seu ponto de partida são os imaginários que conseguem estabelecer. Sem eles não se criam fatos.

A História é sempre construída sobre as mudanças de visão de Mundo. Muitos acreditarem que a nossa época seria a do fim do capitalismo. Não foi isto que aconteceu. O que a caracteriza é a força do cenário virtual. Estados virtuais de todos os tipos proliferam em nossa época. Do mundo virtual retirar ciência, economia e até vida. Pesquisadores reproduzem por meio de modelos computacionais as mais diversas condições físicas, como, a de compreender as condições termodinâmicas em que os materiais são expostos no centro da Terra sem depender da ocorrência de vulcões e terremotos.

Entre o virtual e o real caminha a Humanidade. O natural é a apenas um local-dormitório. As suas reais atividades são aquelas conduzidas por sua mente. Para ela, o Universo é apenas uma paisagem ou campo de observação, o que interessa está em como o vemos. Contudo, não estamos aqui para dar bom-dia, e assim, qualquer área de conhecimento, desde a Literatura até a Física, necessita de percorrer sua via Ápia entre o virtual e o real. Uma viagem cheia de acontecimentos. Essa é a estrada que a Economia tem de percorrer.

Nesta perspectiva, na sua arte de patrocinar, a Economia devem sair de seu rude acerto de secos e molhados e desenvolver processos econômicos baseados em expectativas virtuais. Criar demandas a partir de virtualidades é a nova ação econômica. Há uma imaginação econômica querendo preencher papéis. A Economia não se restringe a se expressar em quatro formas de manifestação de trocas. Proporciona também uma causalidade virtual-real. Portanto, as atividades econômicas estarão e depender não apenas dar formas de troca como das relações entre o virtual e o real. Basta modificar a taxa de juros (virtual) que o ritmo da produção (real) se modifica. O mercado é uma consequência dessa causalidade. O turismo que o diga, basta modificar o cambio que as rotas de viagem invertem suas direções.

Uma Economia virtual-real se estabelece. Uma economia a ter de atuar em dois territórios com qualidades diferentes. Do lado virtual, surgem papéis (títulos de Tesouro e outros), cambio, juros, índice das Bolsas de Valores, tributações; do lado real, aparece o PIB, produtos, imóveis, consumo. Não são territórios vazios. Ao contrário, são povoados de instituições. Do lado virtual, erguem-se bancos, bolsas de valores, agencias de classificação de risco; do lado real, temos indústrias, serviços, comércio. De um lado ficam as expectativas, do outro contas a pagar.

As cidades não aparecem da Natureza, mas vem destas duas regiões da Economia. Essa Economia virtual-real gera uma dinâmica cultural econômica que se divide em dois andares. No de cima, atua com o nome de Economia Financeira ou mais apropriadamente Economia Virtual. No de baixo, vê a produção, ou seja, a Economia real. O fato é que essa divisão (ou percurso) cria duas regiões para o valor econômico. Duas formas de geração de riqueza. Uma baseada no não-trabalho e outra no trabalho. A partir desses elementos é que se deve compreender o conceito de desenvolvimento na Economia. A anotar investimentos tanto no mercado financeiro (ações, títulos de renda fixa etc) quanto no setor produtivo.

Dado esse contexto, como qualquer outra área de conhecimento promovida pela mente humana, a Economia é dividida pelo limítrofe do real e do virtual. São os dois territórios pelos quais a mente humana faz suas caminhada a procura de um todo. A discussão estaria na diferenças de fantasias. Fantasiar um enredo é uma coisa, fantasiar o lucro é outra coisa. Grandes fantasias, digo, euforias na bolsa muitas vezes provocam enriquecimento sem nenhuma base no trabalho ou na tecnologia. Outras grandes fantasias como as de Alexandre Dumas e Machado de Assis, deixam o Mundo melhor. Mas o fato é que, as virtualidades econômicas não podem deixar de existir. Existem livros bons e outros ruins.

Muitas são as considerações possíveis a partir dessa causalidade virtual-real. O seu objetivo está em transformar o natural. A chave está em dada um determinado crédito atingir-se uma receita maior. Nesta situação, a partir de proporções entre crédito e receita, poderemos imprimir na Economia situações em que a ação virtual pode ser maior, igual ou menor que a real. Tudo a depender de engenharias criadas para o lucro acontecer econômico.

Historicamente, acontece uma mudança qualitativa de comportamento. Estruturas básicas que compõe a Economia como a formação da riqueza, o crescimento econômico e a circulação da riqueza se tornam conduzidas por essa dinâmica cultural econômica identificada como economia virtual-real. É à entrada da Economia nos campos da literatura. A trazer confiança no papel (moeda fiduciária). Uma nova formação da riqueza a trazer uma delicada relação real-virtual a ser expressada. A ter como variáveis, não apenas o trabalho como o não-trabalho, não apenas trabalhar com a demanda, mas com a oferta de crédito.

Neste quadro, diferentemente da rainha da Espanha, Isabel de Aragão e Castela, a Economia não vende suas jóias, mas cria papéis virtuais. O novo fundamento da dinâmica cultural econômica é o de basear-se em expectativas. Numa Era do Conhecimento não faltam projetos. Numa época em que a intelectualidade humana toma forma são diversas as expectativas de planos de ação. Sejam nos campos científicos, tecnológicos, sociais, econômicos. Cada um a bolar um caminho, uma viagem de imaginação psi, que espera ser bem sucedida: trazer novas mercadorias e lucros.

Não somente os jornais querem vender seus papéis, existe toda uma dinâmica cultural econômica a espera de fazer negócios com expectativas. Não se compra mais uma casa sem um empréstimo, não se paga um jantar sem cartão de crédito. Observemos a seguinte propaganda para crédito imobiliário: ‘o Banco do Brasil Estilo sabe que cada um pensa em um imóvel ideal. Pode ser em um bairro mais sofisticado. Ou quem sabe até um ‘loft’ bem localizado. Por isso, aparece o BB Crédito Imobiliário com características especiais para você’. Mostra uma época em que estamos sempre envolvidos nesta relação de a partir da virtualização estimular a realidade.

Um quadro a chamar teorias e práticas econômicas. Teorias a interpretar a questão do valor econômico neste contexto virtual-real, práticas a se aproveitarem das suas oportunidades de lucro. Momento para marxistas, keynesianos e liberais se manifestarem. Empreendedores e Mestres do Universo se aproveitarem. Entre formulações e espertezas todos querem entrar nesta nova equação econômica. Uns oferecendo libertação, outros cassinos.

O fato é que o capital encontrou uma nova forma de se mover. O século 21 está diante de uma economia de duas metades. Existe um mergulho duplo para a economia acontecer. Ela tem de caminhar por esses dois territórios que acontecem na mente humana. Como outro exemplo dessa prática econômica virtual-real, citemos a realização do complexo de escritórios da nova sede administrativa da Petrobrás, por uma bem-sucedida operação financeira. Foram vendidos papéis, no valor de R$ 524,5 milhões que antecipam à WTorre, dona do empreendimento, a receita de aluguel que a estatal pagará. Caberá então a WTorre erguer um complexo sob medida para a estatal, que fez um contrato para ser inquilina por 17 anos, a partir da entrega (o que está previsto para o fim de 2011). Para custear o empreendimento, a construtora decidiu se financiar no mercado. Contratou a RB Capital para emitir Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), papéis que têm como lastro o próprio prédio e o aluguel que a Petrobrás vai pagar. Os CRIs foram 100% vendidos ao banco Itaú BBA, em uma operação liquidada em 30 de junho. O dinheiro dado à WTorre, vai integralmente financiar a construção. Pelo montante recebido à vista, a WTorre dará ao Itaú BBA um rendimento nos papéis de TR mais juros, compondo uma taxa maior do que a paga pela poupança. O Itaú BBA estruturou a operação e comprou os papéis para sua própria carteira.

Estamos diante de uma economia virtual-real. Não somente imóveis são os básicos ativos econômicos. Ultrapassamos a clássica noção de valor baseada unicamente em bens reais e moedas cunhadas em ouro e prata. Surge a criação de produtos e moedas virtuais, tais como emitir títulos para se capitalizar, emitir letras financeiras (debêntures), pagar contas com cartão de crédito. Construímos uma dinâmica cultural econômica que assim como a literatura partem da folha de papel em branco para construírem acontecimentos. O sistema atual tornou-se baseado nas moedas fiduciárias administrado por bancos centrais.

O fato é que ninguém mais vive sem construir uma engenharia econômica entre o virtual e o real. Qualquer empresa tem de se organizar nos setores de sustentabilidade financeira, recursos humanos, inovação, serviços e vendas. Sem essa construção não conseguirá se estabelecer. As empresas são as primeiras a entender que devem se instalar dentro dessa dinâmica cultural econômica. É questão de sobrevivência compreender a realidade com que a virtualidade se posiciona na política econômica.

Entretanto, mesmo havendo desvios, o fato é que na economia contemporânea é necessário se criar um clima entre o virtual e o real para que aconteça a atividade econômica. O que regula a temperatura das atividades, produtivas não é simplesmente o trabalho e a tecnologia. Existe a necessidade de buscar o virtual como forma de financiar os investimentos. Esse é o delicado momento em que as atividades virtuais e reais devem se encontrar.

Quanto às empresas, a respeito dessa dinâmica virtual-real que estabelece a economia dos tempos modernos, tomaremos como referencia a empresa Apple. Foi considerada a marca mais valiosa do mundo segundo a revista Forbes 2010: US$ 57,4 bi. As suas atividades no trimestre fiscal abril-junho de 2010 registraram os seguintes números:

Lado virtual: a companhia teve alta de 78%, onde o lucro por ação ficou em US$ 3,51.

Lado real:

Produtos: lançamentos do tablet iPAD no dia 3 de abril e da nova missão do celular IPhone (4), mais a continuação das linhas iPods e dos computadores Macintosh.

Vendas: cresceram de 61%, para o patamar recorde de US$ 15,7 bilhões. A empresa vendeu 3,27 milhões de unidades de Ipad, 8,4 milhões de iPhone (incluindo iPhone4), 9,41 milhões de iPods, 3,47 milhões computadores Macintosh.

Ganho: o ganho trimestral atingiu US$ 3,25 bilhões.

A resenha da Apple é uma demonstração de como atividades virtuais baseadas em criatividade e papeis econômicos geram inovações capazes de produzir ganhos, que por sua vez criam um capital de giro a ser reinvestido na criação de novos produtos surpreendentes. Diferentemente da Wall Street essa é a face saudável da economia virtual-real. Ela é que verdadeiramente transforma o Mundo.

Quanto a país, a constatação dessa Economia virtual-real pode ser vista através de sua balança de pagamentos com o exterior. Ela é divida em duas contas: a conta corrente e a conta de capital. O preocupante é quando a conta de capital é insuficiente para cobrir o déficit em transações que torne sua economia mais virtual do real. Ficar a depender do capital especulativo para cobrir os rombos.

Deste modo, numa época da cultura, surge dentro do processo econômico uma correlação entre o natural, o real e o virtual a ser manifestada. Nos tempos antigos, o valor real de uma moeda estava na cunhagem perfeita, assim o dracma (moeda grega) eram peças de ouro e prata encomendadas por artesãos. Hoje, o que vale é o poder de compra. Com um cartão de crédito (moeda de plástico) nos desvencilhamos da ourivesaria anterior. Trazendo um novo conceito do dinheiro que circula numa economia. A literatura que perdoe, mas os economistas já a copiaram.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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