Economia virtual

Todos sabem que a Economia deve ser uma área de conhecimento cujo propósito está em estudar a construção da riqueza. Para a Física, o espectro do Universo varia entre partículas elementares e galáxias; o da Economia se estabelece entre matéria-prima e produto. Contudo, enquanto o Universo se apresenta em matéria visível e matéria invisível, a Economia contém seus lados real e virtual. Esse posicionamento motivou o historiador. Achava que encontrara aí uma passagem para o que queria.

Não faltam discussões a respeito dos caminhos da Economia. Mas no lugar de esquerda e direita, monetaristas e desenvolvimentistas, o historiador se fixa na questão do trabalho e não-trabalho. Esse seria o tema a ser aprofundado. Ir as suas raízes. Encontrar uma percepção que vá além das palavras de ordem do tipo de número de horas de trabalho; ou de juros, juros sobre juros e moedas podres.

As suas meditações começavam pela assunção da virtualidade: a de que não devemos ter tanta fé na vida natural. Ela é, muitas vezes, só um cenário. Existe algo que, anteriormente, a esboça. A sua tese estava em que o surgimento de uma economia virtual baseada no não-trabalho não seria uma coisa antinatural. Apesar de estar afastada dos princípios básicos da Natureza estava dentro de quadros de subjetivação que constroem a natureza humana. A Economia seria uma área de conhecimento que não se bastaria pelo real como pelo virtual.

A história do homem com o Universo não é para ir conhecer seus bilhões de estrelas, mas a sua propriedade de subjetivação. Sendo assim, a exploração da virtualidade se torna mais importante do que a da Natureza. É porque nela se situa a natureza humana. Enquanto o homem e a Natureza estão próximos e distantes, o homem e a virtualidade são íntimos. A Natureza não configura o homem para viagens espaciais (diferentes gravidade etc), enquanto a virtualidade abre-lhe todo um palco para saber quem é.

A vida humana está cada vez mais saindo do virtual. Do cinema, das canções, das equações, das bolsas de valores. Estamos aprendendo a ver o Mundo, o Universo e a vida a partir de nossa imaginação. O natural ficou para trás. O que importa é a criação.

O ser humano precisa fantasiar e acreditar na fantasia. Necessitamos das virtudes da fantasia. Não apenas de suas fadas e Papai Noel, mas também de virtualidades. A nossa energia de subjetivação é muito grande e não podemos viver sob o pragmatismo das leis que nos cercam. Por que o Senhor dos Anéis foi o maior fenômeno literário do século 20? Os homens necessitam do mundo mágico. Os mitos são as idéias-forças que estão por trás das civilizações.

Ao historiador interessa investigar esse aspecto moderno de que a economia não vive sem o virtual. Assim como a literatura necessita de retratar a realidade e a ficção, a Economia necessita desenvolver seus lados real e financeiro. Os escritores querem conceder tudo àquilo que é possível no seu gênero, coisas reais e ficcionais; o mesmo os economistas. São reflexos da natureza humana. Ela está sempre à procura do triunfo da arte sobre a vida, da ficção sobre a realidade. Assim seria muita inocência não a considerar na área econômica. As bolhas do planeta finanças fazem parte da imaginação humana. É conseqüência deste ímpeto por trocas virtuais.

O fato é que o Mundo sempre necessitou do virtual. Os homens necessitam de inventar, porque o natural não lhes parece suficiente. Sem fantasia nada lhes parece existir. Relembrando Nietzche: ‘A ilusão é a essência em que o homem se criou’. Os homens em sua viagem à ficção escapam das cruezas da vida e se possibilitam aos sonhos. Pela ficção somos recompensados por tudo que a Natureza nos limita. Os desencontros, o envelhecimento, o tempo que passa, a morte perdem seu valor absoluto no mundo da ficção.

A virtualidade é a essência em que o homem se criou. O que move uma pedra de seu canto é o sonho que depositamos nela. A literatura, sabe que a realidade lhe é pequena. Assim, os escritores sempre se especializaram em personagens fictícios. O que é a literatura senão páginas virtuais querendo dar uma realidade a vida humana? Qualquer escritor já na sua primeira página é atropelado para viajar por virtualidades. Deste modo o ofício de um economista-escritor está em nos transportar de um universo do faz-de-conta ao que fez-a-conta.

Portanto, sendo a ficção uma peculiaridade tão íntima como a alimentação, não poderia ser apenas um campo da literatura. Ela iria penetrar em todos os campos humanos, inclusive a economia. Ao lado de uma economia real baseada no trabalho e na produção deveria existir uma economia virtual. A sua proibição seria o mesmo que pedir a um autor para construir sua narração sem passar por elipses.

Em suas viagens pelos subterrâneos da realidade a Economia encontra duas grandezas para partilhar esse caminho que a luz do natural não consegue penetrar. Entretanto, não são entidades laterais, assim como a literatura não é uma fantasia consoladora, essas duas grandezas chegam para abrir a virtualidade, construir um novo espaço para a riqueza. Essa é a função do não-trabalho e das instituições financeiras. Promover um novo tipo de empreendedorismo, aquele que igual a um escritor propõe criar uma história virtual capaz de atrair investimentos reais.

O escritor argentino Júlio Cortázar defende a idéia de que a literatura é uma operação fantástica que nos leva a ‘deslizar até um outro lado’. Ao mesmo modo, a irmã caçula das áreas de conhecimento preserva o sangue da família e nos leva a experimentar coisas que desconhecíamos. A perceber o não-trabalho e instituições fundadas sobre a virtualidade.

A ação do virtual sobre o real não é um assunto isolado de literatura. Não faltam empresários tentando levantar sua companhia numa mistura entre colocar seu capital num fundo de hedge e levantar cedo para ir trabalhar. Surge um novo espírito capitalista. Fazer progresso a partir da quarta natureza do capital. O novo caminho dos seguidores do lucro está em relacionar virtual-real.

A essência da Economia é a formação da riqueza. Contudo, as origens da riqueza na Economia são tão misteriosas quanto nossa relação entre o céu e a terra. Ela estipula suas concepções de valor econômico, algo naturalmente não simples, pois, estimula a oportunidade ao trabalho e ao não-trabalho. O historiador compreende que deveria se aprofundar. Embora nenhum elétron na Natureza consiga viajar sem trabalhar o momento histórico da queda do Muro Financeiro deixou claro a todos sobre a formação de riqueza a partir do não-trabalho. Resolve refletir e vai consultar a História.

O capitalismo deve ter surgido quando o homem acabou com o escambo e como meio de trocas começou a criar moedas metálicas. Entretanto, a economia virtual só aconteceu nos séculos 14 e 15 quando os comerciantes necessitaram de criar a nota promissória. Um mercador em Gênova despachava para a Antuérpia uma carga de especiarias vindas do Oriente e precisava receber seu pagamento, do outro lado, precisava-se de outra solução do que a de enviar uma carroça cheia de moedas. Para evitar o roubo de estrada, criaram-se as notas promissórias. Suas bases eram a confiança e o crédito. Para isto, surgiam os banqueiros, que tiravam sua parte em taxas e juros.

Talvez possa se dizer que a introdução da Economia Virtual tenha sido o motivo para o comercio europeu ter explodido a partir da Renascença. Um século depois, com a descoberta da América, esse tipo de economia evoluía a criar sociedades constituídas de ações. Para enviar navios carregados de Londres e Amsterdã para as Américas e Índia fundaram a holandesa Companhia das Índias Orientais e a britânica Hudson Bay company. Ali começava um típico capitalismo de risco. Se a companhia tivesse um comércio lucrativo, não só os investimentos originais retornavam com ganhos polpudos, como as ações também valorizavam.

A nova fórmula começava a dar certo. O próximo passo estava na criação de um local de encontro para negociar essas ações. Um protótipo de bolsa de valores de Londres abriu as portas por volta de 1690. Inclusive com um estatuto dizendo que os investidores poderiam quebrar se o empreendimento desse errado ou se a especulação fosse excessiva. As regras básicas da economia virtual haviam sido escritas há 300 anos atrás.

Outro a compreender essa nova fórmula de captação de recursos foram os governos. As dispendiosas guerras dos séculos 17 e 18 os levaram a criar um mercado de bônus do Tesouro. Esse seria um negócio extremamente lucrativo para os banqueiros desde que os governos pagassem regularmente os juros. Perdia, quem emprestasse a um regime que não saldasse suas dívidas, ou decidisse explorar os banqueiros, ou fosse varrido do poder. Como a inadimplência em massa das monarquias Habsburgo e Bourbon na Primeira Guerra. Ganhava, quem apostava no lado vencedor como os Rothschild fizeram durante a guerra napoleônica (em algumas guerras anglo-francesas do século 18, comerciantes franceses investiram em Letras do Tesouro britânico).

Desta forma, a partir de expectativas geradas pela descoberta de um novo continente e por guerras, empresas e governos começaram a lançar ações e títulos do Tesouro. Um chamamento à ousadia. Fortunas puderam ser feitas, fortunas foram perdidas. O risco seria uma condição inerente ao capitalismo.

Com o surgimento das notas de crédito, não apenas surguiu um novo modo de alavancagem econômica, como a existência de um elemento de ganho. Até então, o crescimento econômico tinha como variável única o trabalho. A partir de então, surgia o não-trabalho na composição econômica. A Economia entrava num outro patamar. Bastava se cercar da confiança que os outros teriam em suas notas promissórias que sem nenhum fundo seria possível de promover ganhos.

Neste aspecto, o historiador necessita se definir. Medita sobre a distancia qualitativa entre as trocas da Física e da Economia. Enquanto as leis da Física seguem o princípio do trabalho (conservação de energia), a Economia traz uma difícil mistura entre trabalho e não-trabalho. Uma diferença crucial. O cenário físico segue leis de energia, o econômico de valor. No seu mercado, os astutos se dão melhor que os trabalhadores. No Universo, sem energia não se chega a lugar nenhum.

A grande questão para a civilização não é a de saber se existe vida em Marte ou quantos galáxias ficam nos confins do Universo, mas se o seu cotidiano será regulado pelo trabalho ou não-trabalho. Qual vencerá: os princípios da evolução ou os Mestres do Universo? Olhando para as dividas internas e externas dos países vê-se, comodamente, a supremacia do valor econômico vindo dos juros. Existe uma ‘Economia’ que chupa em segundos o que os trabalhadores e cientistas levam anos para construir.

– Economia x ‘Economia’? – se pergunta.

A grande dificuldade para a Economia está em atingir um equilíbrio entre o trabalho e o não-trabalho. Conduzir condições para que eles se comuniquem e criem investimentos. Caso contrário, a sociedade fica fora de controle. Assunto difícil, pois de um lado ficam os Mestres do Universo e do outro uma classe trabalhadora reivindicadora de seu trabalho. Pouca conversa resulta.

Esse conflito entre papéis econômicos e o trabalho é o desafio a ser enfrentado. Em 2010, o Fundo Monetário Internacional prevê um aumento do produto mundial de quase 4%, em um ritmo em pouco mais rápido do que as projeções anteriores. Mas a retomada está somente nos números, à recessão contínua para os trabalhadores. A OIT, Organização Internacional do Trabalho estima que em 2009, em nível mundial, foram mais de 221 milhões de desempregados, 33 milhões a mais que em 2007. O número de trabalhadores que receberam menos US$ 1,25 dólares por dia aumentou em mais de 110 milhões, chegando à cifre absurda de 744 milhões de homens, mulheres e crianças.

– Como resolver essa discrepância de valores? – reflete.

A questão não é o admitir a existência da Economia Virtual, mas o de se ir compreender seus caminhos. Os inícios desta economia virtual estão nas trocas virtuais, na ficção de mercado. Extrapola um jogo de papéis. Convence de que existe um crescimento a partir de um mercado de futuro. E assim, origina-se uma forma de construir riqueza baseada no não-trabalho e constroem-se três instituições: títulos do Tesouro, os bancos e as bolsas.

Deste modo, observa ele, a Economia decola de seu pé no chão, do preço real dos ativos, da consciência de que sem trabalho e conhecimento não se constrói o valor, e entra no jogo de papéis. Tudo começa quando o governo emite títulos de dívida pública para cobrir seus déficits. Atualmente o centro da virtualidade econômica são os títulos do Tesouro americano. A segurança jurídica do país que jamais deu calote em seus credores, além da capacidade de sua economia, faz com que os papéis americanos sejam os mais seguros. Isto faz com que a China financie os EUA, a dívida americana é mais de 1 trilhão de dólares.

Os especuladores são os grandes jogadores, querem lucro imediato (os internacionais saem e entram no país sem pagar imposto). Para eles um país se resume aos títulos do Tesouro. No lugar de enviar tropas, se dirigem rumo aos papéis do Tesouro do país com a expectativa de obter ganhos. Essa é a vitória final.

O parceiro das bolsas na economia financeira são os bancos. Os bancos são instituições que não emprestam o seu dinheiro, mas o dos outros. Captam os recursos dos poupadores e repassam aos que deles precisam. Ganham a diferença dessas duas operações (spread) e comissões por outros serviços. O fato é que a partir desse reduzido objetivo, os bancos se acumularam. Fazem o dinheiro falar mais alto.

O papel chave dos bancos na sociedade é de oferecer crédito. É uma instituição que se aproveita da forte demanda por crédito. Então, oferece uma carteira de créditos e obtém lucros com empréstimos. Esse é o seu cenário. Consegue trabalhar com o capitalismo em estado puro. Os únicos a poder se beneficiar da não-lineariedade do capital. ‘Trabalha’ com dinheiro e faz os melhores lucros sem promover nenhum pensamento, tecnologia ou bem-estar social.

Deste modo, conseguiram centralizar o capitalismo. Tornaram-se sua estação de partida. Qualquer um que quiser fazer alguma viagem pelo sistema capitalista terá que adquirir seu bilhete nos bancos. Igualmente as estações de metrô e aeroportos a conduzir uma multidão de pessoas que quer ir para casa, os bancos se tornaram os locais para quem deseja apanhar seu dinheiro e ir às compras. Apoiados pelos economistas, desenvolveu-se a crença no poder dos bancos como a origem da prosperidade. E assim, acredita-se que através da taxa de juros consegue-se obter uma permanente expansão da liquidez.

Neste quadro, os bancos se postulam os guardiões do capital. Argumentam que a partir de seu patrimônio liquido que uma sociedade monta sua rede de negócios. Uma força extraordinária se levanta. No momento em que todas as ações são obrigadas a passar pelo sistema bancário se tornaram verdadeiramente os condutores da vida econômica. A fazer o dinheiro falar mais alto. A dar o tom da intervenção capitalista na Natureza e no espírito humano.

Contudo, desde priscas eras, despertam-nos demais agentes econômicos um sentimento de repulsa. Eles estão sempre obtendo os melhores lucros. São os donos dos palavrórios da economia financeira: spreads, hedge funds, derivativos. Esses fundos com os mais diversos e cifrados nomes é para no fundo dizer como se deve fazer lucro sem trabalho e tecnologia.

Neste caminho a Economia evoluiu da visão pragmatista de secos e molhados, da oferta de crédito dos bancos, para a de Bolsa de Valores. A Bolsa é feita de investidores e especuladores, assim como os trabalhos científicos são feitos de proponentes a modelos e articuladores de redações científicas. Os investidores querem crescer seu patrimônio. Não aplicam a curto prazo, pagam impostos de renda. Tomados por essa vertente a cada dia ficamos mais a depender de um estranho jogo de papéis trazendo uma constante sensação de incerteza a respeito do valor econômico. Os criadores da riqueza não são mais os trabalhadores nem os cientistas mas aqueles capazes de gerar esses papéis.

As bolsas representam esse grande surto de virtualidade econômica. A sua existência é igualmente na literatura a de procurar o real a partir do virtual. Então, ali, no lugar da ficção o mercado cria a bolha. No famoso livro ‘Manias, Pânicos e Crashes’, Charles Kindleberger e Robert Aliber listam dez bolhas financeiras através dos tempos, começando com a das tulipas em 1637, quando especuladores holandeses viram nas tulipas uma estrada mágica para a fortuna.

A Economia virtual não é uma ficção. Não faltam instituições como bancos e bolsas e dar-lhe realidade. Ela traz uma abstração e concretude de capitalismo que vai além dos tempos de Marx. Basta comparar os ganhos dos bancos nas duas épocas. Hoje, por exemplo, os ganhos do banco britânico Barclays dobraram em 2009 lucrando US$ 18 bi (em 2008 foi US$ 9,6 bi). A mostrar como a palavra valor econômico que a Economia estabelece através do capital visivelmente não se basta pelo lado real da produção. Existe uma Economia Virtual.

Deste modo, o instigante cenário da literatura ganha no mercado o seu parceiro. Cada um está com sua pequena lanterna a apontar as coisas que tocamos, a virtualidade nos ajuda a ver, a encontrar um caminho. A literatura não foi feita para ficar na ficção, nem a economia na especulação. Contudo, existe o perigo da palavra escrita e da econômica ficarem a serviço de vísceras sem compromisso com a exterioridade. Ficamos na situação de que da liberdade de verbo nascem a ficção e a especulação, indispensáveis nesta viagem de existência, mas facilmente arrogantes quanto ao poder concedido. Esse é a fronteira a ser enfrentada.

Cabe a um historiador saber sempre se aproveitar do que pode lhe vir a ser importante de cada área do conhecimento. A História é uma integração de todas as coisas que acontecem. Encontrar nelas caminhos. Então, como filólogo, relembra o sentido da palavra existir oriundo do latim ‘existere’ a significar como ‘aquilo que vem de dentro. Essa é a sua conotação para a Economia virtual. Uma formação de riqueza de dentro para fora.

Estamos de uma dinâmica implementada que os tempos de Marx não foram capazes de admitir. Fixados no processo de exploração do trabalho não compreenderam essa engenharia virtual capitalista. Relegaram o conceito de virtualidade econômica a especulação. Não se aprofundaram nesta lógica de ‘existire econômica’.

Atualmente vivenciamos produtos econômicos virtuais promovidos pelo governo, bancos, empresas. Criou-se um compra e venda de papéis virtuais. O seu movimento de capital baseado numa lógica das expectativas traduz todo esse ambiente econômico virtual de nossos dias. Neste ímpeto, o Fórum Econômico Mundial de 2010, considera que o capitalismo necessita ser impulsionado por expectativas.

Talvez, antes de tudo, devêssemos analisar o espírito capitalista que permeia nosso Mundo. Estamos diante de uma nova formação de riqueza a ser entendida. O próprio Vaticano aposta na economia virtual. Em setembro de 2008 tinha mais da metade de seu tesouro mobiliário em papéis. Algo em torno de 520 milhões de euros. Embaralhar valores virtuais e reais se tornou a característica da Economia. Em 2009, o juros do cartão de crédito no Brasil foi de 239%, o do cheque especial de 132%.

O seu propósito de encontrar o ‘Eu sou o capital’ chegava a uma nova compreensão. As bolsas e os bancos mostram um ‘existire econômico’ que antecede aos secos e molhados. A Economia guarda um ‘Existire Capital’ a ser entendido. Ele é capaz de criar uma indústria financeira.

Embora não exista melhor exemplo de vida virtual do que a de um escritor, que sempre tateando as escuras, nunca consegue desistir de escrever, a circulação da riqueza não deixaria a literatura sozinha. As bolsas fazem com que empresas sem ativos se alavanquem no mercado de capitais. Cria-se um ‘produto financeiro’ novo e complexo, trazendo um truque velho e simples: vende-se um papel cujo valor pode subir ou cair, mas num jogo marcado. Por exemplo, o SEC (Security and Exchange Commission) – o xerife do mercado financeiro americano – acusa o banco Goldman Sachs de vender a investidores, papel que foi criado para fracassar. Esse ‘fraude’ provocou a perda de ao menos US$ 10 bilhões para os investidores.

Neste quadro, não de ficção mas de fraudes financeiras, é que as crises acontecem. A História mostra que a história dos mercados modernos é uma história de derretimentos. Não faltaram pânicos nos anos de 1900, a depressão dos 30, a estagflação dos anos 70, o mercado de ações derreteu em 1987, o mercado de títulos em 1994, o México quebrou em 1994, a Ásia oriental em 1997, o Long-Term Capital Management explodiu em 1998, a Rússia ao mesmo ano.

Aos poucos, o historiador constrói sua tese de que o desmoronamento do capitalismo 2008 não foi devido ao binômio, acumulação e a ganância, mas a apropriação da virtualidade. A existência de uma economia virtual baseada em bolsas e bancos que se tornou maior que a real é o tema a ser defrontrado. A civilização ainda não conseguiu se colocar diante da virtualidade capitalista, nem Marx. Os inocentes do socialismo sonham com uma sociedade em que todos teriam os mesmos direitos e as mesmas oportunidades, não vislumbraram que o processo da formação da riqueza se tornou controlado por uma virtualidade literária capitalista.

Outro exemplo vindo de nossos tempos foi a Bolha na Nova Economia. Na década de 1980 vivia-se a era da Nova Economia. Fortemente influenciadas pelas tecnologias TI as empresas ponto.com se valorizavam além da conta. Prometia-se mundos e fundos, não entregava-se o prometido, mas o dinheiro corria solto. No dia 10 de março de 2000, a bolsa da Nasdaq, referencia do mercado para o mundo da tecnologia, chegava ao seu ápice de 5048 pontos. Cinco dias depois, começaria a estourar (atualmente a Nasdaq atua na faixa de 2300 pontos).

Na procura pelo dinheiro fácil incitavam a fé na tecnologia. A provocar um inchaço artificial estranho aos critérios da economia tradicional, a dizer que os ativos das empresas não eram mais relevantes. Essas empresas eram avaliadas não pelo que faziam ou tinham feito, mas principalmente por suas idéias e o seu potencial de futuro. Nesta cultura, o que importava era o tal do business plan a caracterizar a presença futura de tal empresa no admirável mundo on-line e o vislumbrar ganhos alucinados. No Super Bowl de 2000, por exemplo, 12 empresas, ponto.com pagaram, cada uma, US$ 2,2 milhões por anúncios de 30 segundos.

Não é fácil buscar o novo. Estamos sempre a perguntar onde está o futuro? Sob o ponto de vista econômico precisamos ter coragem de saber quais os novos produtos que estarão a chegar. E para isto, precisamos vivenciar as virtualidades. A literatura e o mercado possuem uma luta em comum que é a de não aceitar o adestramento. A sua verdadeira recompensa está no esforço da travessia de se impor diante do natural e da inércia humana. Ali, na sua virtualidade, planejam os seus movimentos, o de chegar a personagens e produtos nunca dante vistos.

As bolhas não existem sozinhas, fazem parte de toda uma economia virtual que necessita se estabelecer. A Bolha da Nova Economia foi uma fantasia que também estimulou a que mais tarde números produtos entrassem na vida das pessoas. Evidentemente que foi um momento cheio de oportunismos, mas a pergunta está em se não é sempre necessário passarmos por um período de virtualidades sobre um determinado tema antes dele e materializar em real? A sua virtualidade capitalista estimulou a que chegássemos a produtos digitais tais como: e-mail, instant messenger, browser, telefones celulares, voz sobre IP, streaming de vídeo, e-commerce, P2P, ebooks, blogs, web 2.0, banners, smartphones, foto digital, notebooks, netbooks, iPod, iPhone, e outros.

Deste modo, os bancos e as bolsas geram uma visível indústria financeira. Algo que se tornou tão ‘real’ quanto as tradicionais indústrias produtivas. Nessa pesquisa entre os temas que mais preocupam o americano a indústria financeira ficou em 2º lugar, logo após o desemprego. A mostrar como a sua presença já tomou forma nos EUA. O seu tema ficou à frente do déficit orçamentário, gastos públicos, dólar, impostos, investimentos, preços de imóveis.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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