Revolução do conhecimento

Se fazer revolução é colocar o Mundo de cabeça para baixo, a bandeira mais revolucionária é a do conhecimento. Entretanto, até hoje, não se conseguiu levantar essa bandeira. Por quê? A sua diferença para o carnaval é que não consegue colocar a alegria nas ruas. O conhecimento é ainda considerado algo distante de um ato popular. A sua forma escolástica o retira do gosto comum. Assim como a respiração, só sabemos quando falta.

O desafio para uma revolução do conhecimento está em encontrar o elo entre a cultura e o povo. Contudo, revolução não se inventa, igualmente aos vulcões são produtos de um processo histórico, que de repente se irrompe. Cabe-nos apenas acompanhar esse processo, e assim, observar como o sismógrafo da época está a apontar a preponderante importância do conhecimento nas atividades humanas. Tornou-se o magma a aquecer a sociedade. Contudo, embora saibamos de sua existência, mas ainda não explodiu na superfície social.

A causa do conhecimento tem que chegar às ruas. Esse é o desafio da época. Trazer a sua magia para a avenida. Sair da escolástica dos colégios e entrar no desconhecido das coisas. O homem foi agraciado a fazer essa passagem entre o natural e o real através do conhecimento e esse século 21 é quando essa Época do Conhecimento se afluência. É tempo de despertar o grito do conhecimento. Fazê-lo ir além das torres de marfim iluministas.

Cada vez mais o desempenho das sociedades depende do fator conhecimento. Os tempos puramente iluministas ficaram para trás. Hoje, o conhecimento inventa o Mundo. Gera ciência, mercado, dinheiro, padrão da vida, justiça social, consciência. Sem geração de conhecimento, voltamos aos paus e pedras da relação capital e trabalho. Uma revolução normalmente estoura quando o predomínio de uma concepção torna-se insustentável. Neste caso não é mais possível tratar, neste século 21, os acontecimentos através da relação capital e trabalho. É hora de colocar essa relação de cabeça para baixo, sair do estigma de que a produção da riqueza vem do capital e trabalho. Necessitamos nos aprofundar sobre o entendimento do significado do conhecimento no fluxo da economia.

A época do conhecimento traz um show de luz e criatividade. Não vivemos mais nas cavernas, mas numa Natureza modificada. Contudo, ainda não conseguimos nos identificar com o conhecimento. Deixamos que outras forças predominem, como a da relação capital e trabalho. Embora atualmente a equação de lucros e salários já seja escrita pela relação capital e conhecimento, tal formulação ainda não tomou forma do campo político.

Destarte, não vivemos uma época que se insurge contra o absolutismo monárquico ou contra a mais-valia burguesa. O seu momento é o de diferenciar a dialética capital-conhecimento. Essa deve ser a nova motivação da História. Não basta vivermos num capitalismo puro ou numa cultura isolada. Necessitamos introduzir a cultura no sistema de trocas capitalista. Ir além de sua arte e ciência e torná-la um móvel da economia.

Cada geração está dentro da História. Não nasce para observá-la, para fazê-la. E assim cada uma segue o seu tempo, o seu Hoje. Novembro 1917 representou um momento. Na época, achavam que mudariam o Mundo. Mudaram, mas depois o Mundo mudou mais ainda. Agora, chega a geração que irá construir os primeiros 25 anos deste século. O seu desafio está em sair do jargão capitalista e compreender o significado do conhecimento. É uma geração cujo destino está em escrever sobre uma ideologia do conhecimento. Compreender sua natureza.

Ninguém vive seu dia a dia sem olhar para o futuro. Todo homem busca uma razão de ser para sua existência, um ideal. Talvez esteja aí a origem das revoluções. Trazem maneiras de a Humanidade marcar sua vocação nesta caminhada de construir o futuro. Ir além de uma história do trabalhismo e do capitalismo. Encontrar um novo comprometimento. Neste compromisso é que o século 21 deverá encontrar sua revolução do conhecimento.

A História está a espera dessa elite intelectual predestinada por Toynbee. Estamos no exato momento para a formação de uma elite do deserto. Pessoas capazes de atravessar as hierarquias sociais e trazer uma palavra de destino. Sabem que uma História passou e que outra está chegando, mas devem se isolar, se submeter ao deserto, se distanciar do poder para encontrar sua estrela de destino. Não apenas para melhor desenvolver as idéias, como, fortalecer músculos psicológicos capazes de erguer um destino.

O historiador está sempre à luta pelo despertar de uma nova era para a Humanidade. Dar continuidade a esse processo histórico oriundo do trabalhismo e do capitalismo. Agora, sua aposta está na mente humana. Acredita que estamos entrando no momento em que o curso das coisas estará sendo definido pela mente. Ela ganhou o potencial para atuar no curso da História. Acredita que tornou-se plausível propor à opinião pública a instalação da roda do conhecimento. O desafio está em se construir uma opinião pública a respeito dessa Era do Conhecimento.

O futuro de um país depende da educação de seu povo, de sua capacidade de inovar e manter-se competitivo. Contudo, a História é lenta a respeito de suas novas direções, porque ela se faz devagar em seus caminhos devido a toda uma complexidade que a envolve. Fazer-se conduzir pelo conhecimento não é ato natural igual à queda de uma pedra. Necessitará de uma oficina política, i.e., a instalação da roda do conhecimento não virá naturalmente igual ao nascimento de um bebê; necessitará de uma arquitetura. Sem a geração de uma ideologia a História não se transformará sozinha. Precisamos encontrar um novo eixo ideológico para fazer os seus acontecimentos rodarem.

Estamos à espera que da oficina de algum historiador saia alguma bandeira. Encontre um modo de alma capaz de chamar corações e mentes a causa do conhecimento. A sua roda precisa girar.

 

Anúncios

Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
Esse post foi publicado em 6 - Era do Conhecimento. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Revolução do conhecimento

  1. IVETE FRANÇA disse:

    adorei o texto sobre a era do conhecimento. Sou prof. aposentada- Niteroi- Gostaria de contato pra pensar projeto de ajuda a Dilma oferecendo oficinasabordando historia politica do Brasil pra gremios estudantis, sindicatos , associações de moradores…etc.. o q pensa a respeito?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s