Valor Conhecimento

Os homens não são passivos, fazem História. Lutam para falar. A luta humana é para se libertar dessa sua carne que presa entre os ossos o impede de observar o colosso das coisas. Os homens precisam encarnar um espírito que os leve a voar entre átomos e galáxias. Essa é a sua verdadeira História.

A História sempre segue repleta da interpretações. O seu caminho de atuação é vastíssimo e complexo. Marx foi o autor da mais famosa e discutida interpretação materialista, que embora não desprezasse os fatores ideais, sustentava como dominante o fator econômico que deflagraria as lutas de classes. O seu pensamento está resumindo na frase célebre: ‘não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência’. O historiador havia se deparado com um outro fator predominante. A preponderância da economia virtual-real. Acredita que estamos diante de um novo curso das coisas.

O historiador não está à procura do mistério de Deus ou da equação do Universo. A História carrega um tipo de luz própria em relações às coisas religiosas e naturais: antes de se aproximar do sagrado, do último constituinte da matéria, a História nos diz que devemos ir entender sobre o valor das coisas. É o direito que dá aos mortais que por seu percurso andam. Quando as bandeiras não mais tremularem, os impérios sucumbirem, à única coisa que nos resta a lembrar é o valor das coisas.

Neste mundo de coisas efêmeras, a procura de preservação de alguma essência nos leva ao conceito de valor. Embora sabendo de sua posição de meros coadjuvantes, os homens desejam ser protagonistas de algo. Determinar algum futuro. E para isto, necessitam se defrontar com o sentido das coisas. Mal ou bem, de um modo ou outro, todo esse conjunto de coisas do Universo e da Sociedade, deve estar indo para algum lugar. Caso contrário, o que é isto?

O futuro é determinado por nossas escolhas. Talvez esteja aí a origem da noção de valor. Estipular algo que dê algum futuro. Esse deve ser o teste para identificarmos a que serve um determinado valor. No caso, para que não aconteça um futuro com valor econômico baseado no predomínio da virtualidade e de uma circulação de riqueza amoral e acumulativa.

Existe uma outra chamada a ser atendida. O processo econômico possui raízes bem mais profundas do que a caixa registradora de supermercado. Ele guarda a lembrança do maior sentimento que em nossa vida transitória devemos ter: o valor das coisas. De que adiantará enchermos os nossos bolsos se tivermos perdido o sentido para onde as coisas caminham…

A Economia não pode se iludir. Viver o maya (ilusão) da riqueza. Ela necessita de encontrar sua própria teleologia. Valor é o nosso modo de imaginar o futuro. Normalmente é primeiramente associado à economia porque justamente a idéia de progresso econômico é que nos leva a possibilidade de um futuro auspicioso. Os homens não ganharam direito à eternidade, mas podem, ao menos, projetar um futuro. Serem participantes da lógica do processo de desenvolvimento, seja o do Universo, da vida ou do econômico.

– Para onde vamos?

O INET de George Soros deseja encontrar uma nova visão para os investidores de futuro. A nossa época falta encontrar uma nova conceituação de valor. Nem o capitalismo acabou (ou vai acabar) nem floresceu um conceito de valor voltado à realidade mais íntima do homem. Entre o valor e o preço, necessitamos encontrar um caminho de desenvolvimento, de geração de empregos e de formação de riquezas. Mas, ainda faltam controvérsias.

Dos males que afligem este Mundo, cumpre descer as raízes, urge buscar as origens. Então, não foi muito difícil ao historiador compreender que as origens da formação da riqueza estariam na alquimia de transformar numa folha de papel em branco em crédito. Faltava agora ir entender sobre a construção dessa riqueza, o seu crescimento econômico. É quando se depara com a verdadeira face da Economia: os seus serviços não se voltam à evolução propriamente dita, mas para uma circulação de riqueza amoral, acumulativa e transgressora a qualquer alfândega entre o virtual e o real. A sua ‘seleção natural’ de circulação de riqueza é a que eleva o lucro acima de tudo, e assim, estabelece o preço.

– Que valor econômico está traduzido no preço? – fica a pergunta.

Ao historiador o ponto de partida está em que o desenvolvimento econômico não segue as prescrições da evolução natural. O que o mundo científico afere é que os processos naturais não seguem os mesmos princípios de dinâmica dos ativos econômicos. Nenhuma estrela ou animal tem o seu crescimento nos conformes do econômico. Possuem cartilha diferente. Entende que políticas econômicas têm a ver com valores sob o condomínio da mente humana.

Estamos em falta com uma nova proposta que entusiasme as pessoas. Necessitamos reabilitar a força da opinião pública. A conquista dos valores democráticos foi à última conquista destes tempos modernos. O de submeter o poder à lei do voto. A globalização chega, mas, estamos sem um clima político global. O comunismo se foi, a guerra fria acabou, as nações foram atiradas numa crise econômica causada pela ambição e imprudência da Wall Street, e agora, voltamos a sentir falta de um reolhar as questões da diversidade e do desenvolvimento que permeiam qualquer sociedade.

A crise econômica mundial deveria ser uma oportunidade para a esquerda mas ela não foi suficiente inventiva, perturbadora. Não saiu do vazio de nosso tempo. Quanto à direita, a regulamentação do sistema econômico é um assunto complexo e logo ela voltará a se beneficiar plenamente do jogo financeiro. E assim ficamos, num déficit de idéias. Discute-se muitas coisas, mas não chegamos aos fundamentos. Debate-se sobre o papel do estado, a garantia da justiça social, a impedir que a economia real seja suplantada pela financeira, a questão da consciência ecológica. Mas ao final, o lucro continua sendo à base de tudo. Somos uma civilização que não consegue sair do sentido maior do valor econômico.

O historiador percebe que por mais que se tentasse uma lei de regulamentação entre o virtual e o real, como a lei de Dodd-Frank nos EUA, nada nas suas 2 319 páginas irá mudar o comportamento da Wall Street. As raízes da Virtualândia são muito profundas. Leis não conseguem evitar uma deterioração, caso contrário, a lei seca de 1930 nunca seria revogada.

Percebe o desafio. A sua postura diz a respeito da dinâmica cultural. Não existe déficit de idéias. Existe falta de olhar. Em vez de se procurar unicamente com a dinâmica capitalista voltar-se o que o princípio de qualquer desenvolvimento econômico, social esteja baseado na questão cultural.

– Como levantar essa bandeira?

Não vê possíveis mudanças no sistema financeiro. Entende que a crise está no coração do sistema financeiro e não vai ser resolvida rapidamente. Qualquer solução vai exigir grandes mudanças no mercado financeiro para recuperar a confiança de clientes e investidores e recuperar a oferta de crédito que havia antes. A solução está em contrapor o valor financeiro por um outro valor. O fundamental está em fazer a roda da economia encontrar uma nova engrenagem para girar.

A providência da História está com a dinâmica. É o momento de a dinâmica cultural ganhar a sua voz, os muros caem para alguma coisa renascer, iguais aos incêndios na floresta, haver terreno limpo para a passagem de uma nova dinâmica, novos nichos. Falta saber como esse rio cultural irá encontrar as suas margens. Ou como os homens serão capazes de construir uma nova História separando o rio de suas margens.

Após a conquista da democracia falta a nossa época ir estabelecer a cultura como o elemento indissociável do desenvolvimento. Entretanto, articular essa mudança de qualidade traz um salto que ainda não estamos preparados. Atualmente é mais atualmente se discutir o sistema bancário do que a diretiva cultural.

Considera que o próximo passo da História está em instalar o valor conhecimento. Compreende que o valor conhecimento não está num jogo de papéis (embora tenha que passar por ele), mas nas construções da realidade. Sair da imaginação e chegar ao real é cunhar a moeda conhecimento.

Essa meditação preenche sua cabeça. Compreende que estamos diante da presença de um novo capitalismo. O de estabelecer no preço o valor conhecimento. Contudo, ainda não há polêmica em torno do tema. Valores monetários e trabalhistas predominam.

– Porque não há preocupação com o valor conhecimento? – pergunta-se.

O historiador havia percebido a crise do valor econômico. Entendia que aquele mundo da época protestante tanto prestigiado pelos economistas originais servia apenas como imagem de fundo. A crise financeira havia mostrado um caminho sem volta. Os valores supremos da Economia haviam perdido valor. Entretanto sentia que sua tarefa não está em ficar discutindo isoladamente sobre a depreciação do valor econômico. Essa seria uma questão para os economistas. A sua como historiador é a de perseguir valores supremos. Destarte, o que lhe incomodava era a negação desses valores devido à desvalorização do valor econômico. A sua tese não estava em discutir se a economia havia se tornado uma ficção ou não. A sua intenção era encontrar algo que antecedesse o valor econômico. Então, quando retorna a Adão e Prometeu, não tem duvidas quanto a localização do conhecimento. E em vez de escrever no papel de açougue, dá um grito:

– Antes das gráficas!

Esse é o momento que se abre a causa do conhecimento. O de colocar o conhecimento nos inícios. No lugar da contradição entre a burguesia e o proletariado trazer o embate do conhecimento. Descer as suas profundezas. Entender que o conhecimento vai além da visão iluminista que povoou os tempos de Marx e chega neste século 21 como um dos fundamentos da dinâmica social. O capitalismo não cairá apenas por suas crises, por mais profundas que sejam. Se nada de novo se apresentar na História, surgirá uma nova recuperação do capitalismo. A burguesia, longe de abrir mão do poder econômico, buscará novas formas de aumentar e explorações e, assim, escapar de mais essa crise; o proletariado perdeu as forças para enfrentar o sistema. Esse é o momento para a causa do conhecimento tomar posição.

A História realmente não se repete, mas cabe aos homens fazer sua transição de fase. Para isto, o fundamental é saber o que termina e o que inicia. Estamos em conclusão da Idade Contemporânea e início da Idade do Conhecimento. Um tempo ainda sem muros, apenas com horizonte a ser olhado. Os que desejarem a mudança de época preparem suas mochilas para fazer sua caminhada guiados pela estrela do conhecimento.

A derrubada do Muro de Berlim e do Muro do Capital evidenciam que uma era se esvaiu, levando poderes de alguns e sonhos de outros, contudo, restaurando caminhos a serem abertos pelos próximos. Esse é o novo momento. É costume dizer-se que a História não se repete, mas a questão é para onde ir. É sempre mais fácil se imaginar destinos através de muros e cárceres.

A queda dos muros marca o esgotamento de visões de Mundo. Da mesma forma que o liberalismo clássico dos séculos 18 e 19 foi politicamente enterrado por sua insensibilidade ao sofrimento humano e às desigualdades sociais, a ditadura protelaria e a economia financeira não podem servir de bandeira à conclusão da História. Sobrou que termos de ir muito além. É o momento de reflexão do historiador. Aprendemos que necessitamos do Estado e da liberdade individual. Como uni-los? A História não se repete, mas tem tendência a ficar parada. Não é fácil deixar velhos slogans e admitir um novo. Os muros caíram, mas um Outro Mundo é possível: os gritos de um ‘socialismo do século 21’ e de uma ‘estabilidade via economia financeira’ permanecem vivos.

O apocalipse do fim da História não aconteceu, apenas dois muros desabaram. Para alguns ficou a nostalgia do tempo em que a História existia, para outros o horizonte para a História recomeçar. O historiador compreende que no lugar de ficar em propostas a repensar a ordem econômica mundial o momento é o de buscar uma outra percepção. Entender a noção de valor mais profundamente. A sua suposição é a de que o próximo passo da civilização está em do valor econômico estabelecer o valor do conhecimento. Essa seria a sua procura. Parte do princípio de que ‘bolhas especulativas’ sempre existirão. Fazem parte do processo de virtualidade da natureza humana. Assim como a ficção na literatura elas devem ser encorajadas como maneira de estimular uma economia. Entretanto trazem apenas uma superfície cuja profundidade está no valor conhecimento.

Ao historiador cabe ir compreender a máquina do Mundo. Aceitar o seu desafio. E assim começa a analisar a crise econômica acontecida como um fenômeno inapelável de um misterioso magma que fica por debaixo do progresso. Ancoramos nossas vidas numa superfície de trocas capitalista que mantém a sociedade em atividade. Mas quando esse magma treme, semelhantemente as falhas geológicas, sentimos as limitações do sistema. Existe algo por baixo que não conseguimos controlar, contudo a vida deve seguir em frente, ou melhor, a História revelar as suas novas facetas. Compreende que a Era do Conhecimento surge desse magma, mas a equação de lucros e salários ainda é vista sob uma relação capital-trabalho do que sob capital-conhecimento. Uma nova erupção trazendo um novo território do conhecimento para se caminhar.

A fissura geológica aconteceu, os muros caíram, ficamos livres para enxergar a chegada da Era do Conhecimento. Ganharmos à noção da primordialidade do conhecimento. Não apenas com o seu poder de se entender os fenômenos que nos cercam, com o de se tornar um novo modo de produção, assim como, de servir como um novo elemento para diminuir as diferenças sociais. Além disto, encontrar na estrada do conhecimento o caminho da transcendência que a natureza humana tanto procura.

Neste cenário, chega à questão do conhecimento. Como nos vedas, trazer o conhecimento como plano diretor. Imagina que seja possível fazer a História começar de novo. As lógicas do capitalismo e do comunismo não serão capazes de puxar o carro da História neste novo milênio. Neste fim de História, o conhecimento se inicia. Desde o fogo muitas foram as façanhas do conhecimento, mas agora, o desafio estará em colocá-lo como agente da História.

A queda dos muros nos leva a ir procurar novos valores. Uma crise econômica representa o momento de recuperar valores. Houve um tempo das internacionais socialistas, outro em que o mercado era a solução para tudo. Sempre apoiado pelos economistas, todo mundo tinha soluções através do mercado, só o estado não podia nada. Entretanto, o historiador compreende que o Mundo não irá aprender com a atual crise do mercado. O óbvio não é simples de ser enfrentado: ninguém quer deixar de fazer lucros.

O historiador havia entendido que não chegava para consertar uma velha História, mas para construir uma nova História. A questão de crédito entre patrícios e plebeus lhe era secundária. Para ele, 2008 representa outra ruptura do que a de reintroduzir políticas keynesianas. O seu interesse estava em dar ao conhecimento uma luz econômica própria. Promover um FIAT LUX ao valor conhecimento. De produzir um crescimento a partir da capacidade do ser humano de gerar conhecimento.

De lógica em lógica (ou de crise em crise) havia chegado a um momento crucial o qual seria o de discutir-se o conhecimento deve ser colocado no andar de baixo ou de cima. Lembrou-se então, como muitas empresas se utilizem do jogo financeiro para pagar funcionários. Essa seria a perspectiva do sistema atual. Deixar que os patrícios alavanquem o crédito.

Conhecimento: o novo andar da Economia

Identifica que embora vivamos numa época de extraordinárias transformações tecnológicas o sentido de valor conhecimento ainda não veio à tona. Não faltam celulares e mil outras tecnologias digitais, mas a moeda conhecimento ainda não encontrou seu ferreiro para ser cunhada. Ainda falta a construção de uma ideologia do conhecimento capaz de integrar educação-ciência-inovação, por exemplo. A respaldar uma política de investimento onde não exista desenvolvimento sem conhecimento.

 

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
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