Fiat Lux, Dilma!

As eleições trouxeram uma vitória, uma derrota, um assunto proibido e um futuro à vista.

            Marx traduziu a História como movida por uma luta de classes entre exploradores e explorados, patrões e assalariados. Outro modo está em a identificar como movida por ondas de luz. A cada época ela promove um novo desfile de modas. Os homens estão sempre querendo revestir suas relações.

Vitória

A História assina a queda dos Muros de Berlim (1989) e o Financeiro (2008) e, prossegue. O seu novo ofício é o de acordar gigantes como China, Índia, Brasil. A História não gosta de gente preguiçosa. Mas, deixa cada um ir se levantando a sua maneira. A China de Mao a erguer um estado-capitalista, a Índia dos Vedas a incentivar mão de obra barata e, o Brasil das ditaduras latino-americanas a bocejar seu processo democrático. Muros caem, gigantes acordam, História segue.

Em 1901, o presidente americano Theodore Roosevelt classificou a América Latina de ‘Bananas Republic’. Estava certo. O seu século 20 foi o do predomínio das ditaduras. No Brasil, tivemos 15 anos do período Vargas e 21 do período militar. Não conseguimos ter povo, apenas elite.

A nossa incapacidade foi a de não conseguir fazer Historia. Tomar um rumo, igualmente como os Estados Unidos o fizeram a partir de sua independência em 1776. Atuamos sempre no varejo, nunca na História. As nossas insurreições sempre foram contra um tal regime capitalista. Não queríamos entender que a civilização sempre foi capitalista desde que trocou o escambo pela moeda. Sem horizonte, ficamos no ‘bananas lemma: Yankees fora!…’

Neste quadro, o Brasil sempre foi chamado de o país do futuro. Um futuro que havia começado lá trás com Tiradentes, mas teve de esperar e esperar, até que no século 20 avistou o tenentismo, a coluna Prestes, a era Vargas. Mas, que também não chegou… Só começou a tomar forma quando em 1954 aconteceu o suicídio de Getúlio Vargas. A partir de então, a História do Brasil moderno ganhava as polarizações de luzes e trevas necessárias para construir seus caminhos. Na própria década de 50, aconteceria a vitória do golpismo de Lacerda (trevas) e o governo de Juscelino (luzes). Havíamos econtrou os nossos pólos para fazer história.

Depois da religião, a política é o setor que mais se energiza com essa dicotomia de luzes e trevas. Deste modo é que acende o seu palco. E assim, o motor da História brasileiro havia encontrado o seu combustível. Em vez de Hamlet e seu drama shakespeareano entre o céu e a terra, o Brasil prefere ser alimentado por luzes e trevas. Contudo, o seu caráter conservador dos anos 50, ainda precisava de ser provido com mais trevas.

O Golpe de 64 nos trouxe o tempo das trevas que precisávamos para nos entender. O período da História para criarmos músculos psicológicos. Não se levanta com futuro apenas com idéias, sem músculos psi elas se divagam em utopias. E assim, vivenciamos a escuridão da falta da liberdade de expressão. Neste terreno das trevas a sociedade brasileira teve de germinar, até encontrar, o seu caminho de fim do túnel. Uma luz que aos poucos ia chegando, era a democracia amanhecendo.

Os países e as pessoas sempre demoram para encontrar o seu caminho. Cada um tem o seu deserto a atravessar. Uns levam 40 anos, outros as perdas de muitas vidas. E assim de Tiradentes a Lamarca, muitos foram os heróis anônimos que tombaram na aspiração de um Brasil Independente. Esse foi o tempo de martirização da América Latina, representando pela figura de Che Guevara (sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida). A América Latina e o Brasil desejavam encontrar seu lugar na História. Serem mais do que um empório a satisfazer elites locais e coloniais.

E assim aconteceu, a duras penas a América Latina e o Brasil conquistaram nos anos 80 a sua primeira onda de luz: a democracia. O Brasil não seria mais aquele país do futuro, mas se tornava uma nação capaz de acender sua luz. A de colocar sua população na História com o direito de cidadania através do voto. Dilma como outros de sua geração viveu esse período. Perdeu, mas fortificou seus músculos psi, para depois, conseguir abrir os caminhos de uma nova época. Engano a analisar como uma invenção de Lula. É alguém de uma geração que participou da construção desse Brasil que chegaria a Democracia. Lutou na resistência ao Golpe de 64, na campanha das Diretas e na Constituição Cidadã de 88.

Desta forma, o Brasil construía o grande campo político da democracia, da liberdade e das causas sociais. Uma nova etapa se abria. Essa força da transformação democrática impulsionaria a uma segunda onda de luz. A de dar ao povo-cidadão o direito de consumir. A luta do direito de expressar passava a de se chegar ao direito de ter bolso. Entrava o período da Economia. A seguir, não faltaram programas de estabilização econômica, dando passos para frente outros para trás, mas sempre em frente. Contudo, a estabilidade econômica iniciada pelo Plano Real em 1994 deve ser vista apenas como um início. A questão estaria em se criar um mercado interno.

Essa segunda onda mostrava que a América Latina não precisava mais de mártires. A temática voltava-se mais ao cuidado com a coisa pública do que incendiar bandeiras contra o capitalismo. A nova ordem estava em promover governos nacionalistas a não mais permitir as privatizações lesa-pátria (o cálculo da perda de patrimônio público no governo de FHC é estimado entre 10 e 17 trilhões de reais). O caminho não estava em privatizar o país, mas o de construir um mercado interno.

Nesta segunda onda de luz é que apareceu o governo Lula em 2003. Lula encarnou a sociedade dos esquecidos e conduziu uma nova classe média. Baseado unicamente na democracia estabeleceu uma vontade política capaz de dobrar o sistema escravocrata que tanto agrada as elites. Não precisou dos moldes da revolução cubana para dar poder aquisitivo a mais de 50 milhões de pessoas. Baseado no diálogo das negociações, conduziu os ‘esquecidos’ para o mercado. Tirou-os da ‘senzala dos assalariados’, aqueles que trabalham mas não conseguem consumir, ter direito a proprieddade.

Sendo ministra da Casa Civil por 5 anos, Dilma participou desse processo. A segunda onda de luz aconteceu. Cerca da metade da população brasileira foi introduzida na classe média. A História avançou no Brasil. O governo Lula conseguiu esse efeito notável que é de tornar o Brasil um mercado consumidor. Bonito por natureza, o país ganhava o novo título de ser um mercado atraente. Portanto, ela não é uma incógnita, um ponto de interrogação, mas alguém que participou diretamente da construção desse Brasil que retira seu trabalhador da senzala e o leva para o mercado.

Os críticos da Dilma não compreendem que ela traz a continuidade de História no Brasil. Foi eleita simplesmente pelo ímpeto consciente e inconsciente de uma geração desejando levar a tocha para a 3ª onda de luz. A oposição quer sempre encontrar justificativa para a derrota. Perdeu porque Dilma estava com a História na mão. Participou diretamente da construção da democracia e da classe média. Foram os dois maiores eventos públicos da Historia do país. Comparáveis ao seu descobrimento e independência.

Destarte, a vitória da Dilma é a vitória da História. Por 500 anos pode-se dizer que nunca o povo brasileiro conseguiu fazer sua História, apenas esteve a serviço da dos outros. Primeiro a dos colonizadores, depois a das elites. Mas, a partir da década de 80 com a instalação da democracia e neste século, com a inserção da classe média, esse povo conquistou a cidadania de votar e consumir. O Brasil não era mais um barco perdido no oceano. Uma História com duas ondas de luz acontecia em seu território.

A principal diferença do Brasil de hoje para o dos anos anteriores a década de 80 é que não somos mais um país ‘anti-establishment’. A nossa iniciação não é mais a de se declarar contra o capitalismo e ir queimar a bandeira americana em praça pública. O noviciado está em irmos fazer História. As duas ondas de luz nos trouxeram a confiança que precisávamos. O momento é o de ir em frente.

Derrota

A democracia conquistada havia trazido à institucionalização da liberdade de expressão. A sua vitória política está no direito de opinar. Dar ao cidadão o direito de ser contra e a favor. Então, as eleições se apresentaram como o ponto alto desta ágora de manifestações. A campanha chegou e expôs a mídia. E ela, se comportou como um partido midiático. Trouxe o subterrâneo político. Mostrou o jornalismo dos interesses.

As quatro grandes mídias do Brasil (Veja, Folha, Estadão, Globo) escolheram o caminho da partidirização. Transformaram suas notícias e colunistas em cabos eleitorais. Numa suposta liberdade de imprensa se tornaram o secretariado do comitê central do partido midiático brasileiro. Algo tão distorcido que levou o deputado Fernando Ferro e o colunista Paulo Henrique Amorim as intitular como o Partido da Imprensa Golpista (PIG).

O objetivo do PIG era o de eleger o candidato José Serra. A estratégia era a de evitar a discussão do programa de projeto político. Havia o temor de comparar FHC com Lula. Por exemplo, num jornalismo sério, Joelmir Beting fez a seguinte comparação: ‘Em 2002, inflação era de 12,5% / 5,1% em 2010, dólar 3,94/ 1,70 em 2010, PIB 2,7%/ crescimento acima de 7% em 2010, desemprego 12,7/ 6,2 milhões em 2010, risco-país 2.400 pontos em 2002/ 170 pontos em 2010. Entretanto, simples comparações como estas, não poderiam vir à tona. Sendo assim, copiando a direita americana, colocou-se a pauta religiosa. Lembrando a marcha de Deus com a Família de 1964, incitou uma mobilização social por valores religiosos e éticos, imprimindo a questão do aborto.

Entretanto, o Mundo mudou com a internet e, a coragem dos blogueiros desmontou todo um sistema de informação. Os chamados ‘blogs sujos’ foram fundamentais para contrapor os danos da mídia. Foram eles que fizeram à verdade ser estabelecida. A trincheira dos blogs venceu. O Brasil ganhava mais uma luta que é a do direito a informação.

A grande mídia sofreu um duro revés. A sua consequência em valores democráticos ainda está para ser entendida. Ao ser perguntado sobre o que era jornalismo, o grande jornalista inglês Rober Fish respondeu: ‘é lutar contra as injustiças e buscar a verdade’. Neste sentido a grande mídia brasileira perdeu a sua vitalidade.

Ao final dos confrontos humanos, quem se manifesta é a História. Assim, tornou-se interessante, observar se os novos caminhos continuarão conduzidos pela informação vinda da grande mídia ou da federação de blogs. Estamos num tempo de mudança de paradigma. Os avanços tecnológicos estão a atomizar a produção de conteúdo. Algo mudou. Definitivamente.

Região Proibida

 

A segunda onda de luz foi a do social. Lula incluiu socialmente uma França no mercado interno. O Brasil conseguiu encontrar seu caminho na História. Entretanto, não consegue entrar numa certa região proibida.

Existe uma região proibida para os corações e mentes brasileiras que é a do território financeiro. É proibido discutir o regime de usura imposto ao nosso país sob o risco de perda da governabilidade. O próprio Lula é chamado de ‘pai dos pobres e mãe dos ricos’ por justamente não se contrapor aos ganhos irreais dos bancos.

O Brasil tem de engolir o sistema financeiro. Nenhum governo teria respaldo no Brasil para numa luta contra o sistema financeiro. Nem do povo muito menos das elites. A nossa cidadania não sustenta este desafio. Então, em prol da governabilidade, devemos deixar esse tema ao lado. Não criticar o sistema financeiro como um sistema opressivo.

A questão não é a de ser contra o regime capitalista. Isto é retórica. A civilização sempre foi capitalista desde que admitiu a troca. A questão é a falta de crítica ao sistema financeiro. Muito antes de se discutir questões de governo, como infra-estrutura e desenvolvimento em saúde e educação, o tema deveria ser o do caminho econômico-financeiro sendo tomado. Entretanto, esse se tornou um assunto envolto de medos e assombrações: inflação, desemprego, desaquecimento econômico. Não faltarão punições para daquele país que se levantar contra essa ordem financeira. Ninguém consegue começar a desconstrução dessa mentira.

O resultado é que hoje em dia se faz uma política sem condenar o sistema financeiro. Não se consegue ir contra. O Brasil não consegue formular um projeto econômico baseado no trabalho e na produção. Está amarrado a manter um projeto macroeconômico ligado ao sistema financeiro. O Estado está sempre a despejar bilhões de reais em juros financeiros. A divida interna do país deve fechar o ano de 2010 em 2,3 trilhões de reais. Ou seja, estaremos assinando um recibo de juros de 240 bilhões de reais por ano.

Independentemente de governo, a economia brasileira tem sido avassalada por esse regime de usura. Por exemplo, o governo Fernando Henrique Cardoso arrecadou cerca de 100 bilhões de dólares com as privatizações, no propósito de diminuir a dívida pública e tirar a nação de uma permanente ‘crise fiscal do Estado’. O resultado foi o oposto, a dívida interna brasileira cresceu bem mais do que o PIB. A dívida passou de R$ 60,7 bilhões ou 28,1% do PIB em 1994 para cerca de 60% do PIB no final de seu governo em 2001. O governo Lula reduziu para 42% do PIB. O governo Dilma pretende chegar a 30%.

O fato é que a nível mundial o sistema financeiro conseguia se impregnar no PIB dos países. Quer dizer, a economia não chega para servir o bem estar de uma nação. O fundamento está em fazer a economia girar para pagar juros.

No sistema capitalista atual se tornou possível se falar sobre erradicar a miséria (o sistema precisa de consumidores), mas é proibido se erradicar os juros. Fale-se de aborto, corrupção, ecologia, bolsa-família, mas não se fale do sistema financeiro. Nele estão os alicerces da democracia, diz o político. Nesta situação, a sociedade se move baseada em enriquecimentos baseados no não-trabalho. Hummmhhh!…

Esse foi o lado proibido da eleição. Nenhum candidato quis tocar no assunto. A não ser Plínio Arruda que por sua idade, deu-se a liberdade de o levantar, de uma forma superficial. Essa é uma questão que profundamente toca a economia mundial. Vide a crise de 2008. Mas nenhum político suscita falar quando a questão se trata dos ganhos dos bancos. A discussão política fica apenas na lojinha de R$ 1,99.

Tempo novo

A democracia foi conquistada pelos brasileiros como um valor fundamental. Trouxe uma nova dimensão substantiva a um país que teve boa parte de sua História mergulhado no autoritarismo. Então, dentro dessa realidade viva e plural, conseguiu na base do diálogo (e não dos rifles) construir uma nação com metade de sua população na classe média. Nestes dois movimentos, o Brasil começou a participar da História. A permitir que sua coletividade caminhe em solo histórico.

Um terceiro desafio aparece. Os homens não se constituem apenas na Natureza. Então, para constituir o atestado de povo, necessitam caminhar na História. Nela é que vemos que tipo de conjunto conseguimos formar. A História, assim como as estações do ano, traz os seus momentos históricos, deixando aos homens a tarefa de que tipo de povo irão montar diante de um novo momento histórico.

O terceiro milênio chegou trazendo a sua Era de Aquarius. O século 21, em sua primeira década, já nos mostra explicitamente a presença da Era do Conhecimento. Uma nova causalidade começa a se impor. Não vivemos mais um mundo somente capitalista, como conhecimentista. Uma nova luz começa a ascender.

Destarte, o Brasil precisa construir o seu discurso de Era do Conhecimento. O novo imaginário coletivo deve ser a entrada do Brasil na Era do Conhecimento. Colocar o conhecimento na pauta. Criar seu caldo de cultura para se projetar neste novo tempo. Trazer a Era de Aquarius para o Brasil.

O Brasil de Dilma entra para o seu terceiro grande projeto de sociedade. Depois, de conquistar o direito de livre expressar através da democracia, de ultrapassar a exclusão e a desigualdade social, agora, chega ao momento maior que é o de fazer o país conquistar sua autonomia e emancipação através de sua capacidade de gerar conhecimento. O eterno gigante adormecido: acordou com a democracia, levantou com a classe média e quer caminhar com o conhecimento.

A História espera do Brasil a criação de um Mundo Novo. Provocar um novo ideal que renove a Humanidade. Estamos num momento angular de nossa História. Não sabemos qual é, mas sabemos que deve ser baseado na magia do conhecimento.

Uma terceira onda desafia o novo governo. Dilma não chega para reacender as lutas trabalhistas de Getúlio Vargas que ainda estão enraizadas no imaginário popular. A História anda. Fomos além da relação capital-trabalho. Hoje precisamos discutir a integração entre conhecimento-capital-trabalho. Essa trialética é que se tornou a formadora de riqueza e emprego.

O povo está farto de factóides e de dólar nas cuecas. Também quer algo mais do que essas propostas simples de ecologia (alheia à tecnologia) e ficha limpa do Congresso. O povo quer um novo tema que o leve a caminhar na História. O gigante adormecido despertou para sua grandeza. Numa Era do Conhecimento ninguém mais quer alienar sua vida do Desconhecido. Desejamos participar dessa conspiração que existe para que cada um abra a sua consciência.

O discurso de projeto de país deve estar profundamente ligado ao momento histórico. Portanto, embora muito se fale sobre o capital e a miséria, o desafio a nação brasileira está em construir sua emancipação através do conhecimento. Ter nele o condutor de suas ações, inclusive para erradicar a miséria e controlar o capital financeiro.

Um novo tempo de abre. Desta vez o povo brasileiro quer subir no bonde da História. Fazer a sua viagem. Para isto, o novo governo vai ter de fazer uma nova política. Construir o campo político do conhecimento. Não se justificar apenas na busca da ascensão do povo pobre à classe média. Assumir a Era de Aquarius. Trazer a emoção do conhecimento: ‘Let the sunshine in’.

Chegar ao Reino da Consciência é a nova utopia brasileira.

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Sobre Melk

O autor é doutor em física pela Universidade de Oxford e empresário do conhecimento (www.aprendanet.com.br). Como físico, ao estudar que os fundamentos do universo, os quarks, se apresentam em três cores: se converte num fanático torcedor tricolor.
Esse post foi publicado em 1 - Eleições 2010. Bookmark o link permanente.

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